Marabá, 17 de julho de 2024

A ceia do Senhor em São Paulo segundo São João Crisóstomo

27 de março de 2024   .   

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá. PA.

            Na missa do lava-pés, na quinta-feira santa, a segunda leitura (cf. 1 Cor 11,23-26) fala da ceia do Senhor segundo a tradição que São Pulo recebeu dos apóstolos e também da comunidade dos cristãos e das cristãs, na qual o apóstolo escreveu aos Coríntios, deixando como um grande testamento feito pelo Senhor, em relação ao pão e vinho, seu corpo e seu sangue, para fazerem memória dele junto aos discípulos até a consumação dos séculos. São João Crisóstomo[1], bispo de Constantinopla, séculos IV e V deu uma importante interpretação de modo que a seguir ver-se-á a sua doutrina sobre a eucaristia, como pão que prepara o povo de Deus em Jesus, rumo à casa do Pai.

            A lembrança dos mistérios.

            São João Crisóstomo teve presentes a lembrança dos mistérios, fator importante na vida das pessoas, pois o Senhor dignou-se fazer com que todos participassem da mesma mesa. O apóstolo Paulo falou da noite em que o Senhor Jesus foi entregue (cf. 1 Cor 11,23), cujo sentido e valor entregou-se Ele à humanidade para a sua salvação. O bispo colocou o tempo em Jesus, pois naquele fim de tarde estiveram em conjunto a negação de Pedro e traição de Judas.

            A condição do Senhor.

            A sua condição em relação à sua alma estava Ele triste até a morte(cf. Mt 26,38), no entanto ele estava em companhia com o Pai, com os discípulos, pelo fato de que foi traído, preso, arrastado e julgado até a morte de cruz, na qual ele foi se apartando da terra e de todo o luxo[2]. O fato era que o Senhor entregou-se a si mesmo de modo que a pessoa que segue a Jesus e à Igreja é chamada a fazer o mesmo ajudando a quem mais precisa dela[3].

            O Apóstolo e o Senhor.

            São Paulo disse que ele recebeu do Senhor as coisas realizadas na última ceia (cf. 1 Cor 11,23). Ele não pertencia ao grupo dos apóstolos, mas ele viveu a alegria da conversão de modo que recebeu do Senhor a sua entrega pelo pão e o vinho dados para a salvação do mundo. Ele recebeu a última iniciação ao mistério e na mesma noite que ia ser imolado, Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: Tomai, comei. Isto é o meu corpo, que é dado por vós (1 Cor 1,23-24)[4]. Foi a unidade do Apóstolo Paulo com Jesus e Jesus com o Apóstolo Paulo.

            A eucaristia e a vida

            São João Crisóstomo afirmou que a eucaristia vai junto com a vida. Se pessoa se aproxima da eucaristia a sua vida anda bem de modo a não praticar indignidade na Ceia, como não ter vergonha das pessoas, não desprezar o faminto, não se embriagar, nem injuriar a Igreja[5]. É preciso se aproximar da Eucaristia dando graças pelo dom que a pessoa recebeu e por conseguinte retribuir ao Senhor o dom recebido, de modo que não será possível se apartar do seu próximo. O fato é que Cristo deu-se em alimento para todos ao dizer: Tomai, comei (cf. Mt 1,23). Assim o seguidor e a seguidora do Senhor ajudam aos outros com o pão material para se unir a Jesus, o pão espiritual[6].

            O cálice e a nova aliança.

            Do mesmo modo, após a Ceia, também tomou o cálice, dizendo: Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim(1 Cor 11, 25). O bispo de Constantinopla falou que não seria possível, uma pessoa celebrar a memória de Cristo, e ao mesmo tempo desprezasse os pobres, porque ela está em comunhão com as pessoas necessitadas. O sangue da Nova Aliança é o sangue do Senhor Jesus dado para todas as pessoas. Os discípulos receberam do próprio Cristo a vítima de doação do Senhor[7].

            Comer do pão e beber do cálice.

            Pois todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha(1 Cor 11, 26). O Senhor pede segundo São João Crisóstomo, a realização da comida com o pão e da bebida com o cálice, anunciando a morte do Senhor, porque seria a sua entrega total ao Pai e à humanidade por amor infinito. Assim Jesus disse sobre o pão e o cálice: Fazei-o em memória de mim, (cf. 1 Cor 11,25) revelando aos seus discípulos e discípulas o motivo da instituição do mistério, declarando com os outros, também este é suficiente fundamento para a piedade[8]. A sua memória é de uma pessoa que amou a todas as pessoas com infinito amor.

            A morte e a sua vinda.

            São Paulo também afirmou pela determinação do Senhor Jesus: Todas as vezes que comeis.. anunciais a sua morte. São João disse que aquela Ceia constou estes dados fundamentais para a vida eucarística do povo de Deus. O fato é que ela realiza-se pelos seus discípulos até a consumação dos séculos, segundo o desejo e a Palavra de Jesus, de modo que foi dito: Até que ele venha (1 Cor 11,26)[9].

            São Paulo recebeu da tradição dados da última ceia na qual o Senhor entregou o seu corpo e o seu sangue, pelo pão e o vinho dados para os discípulos, sinais da Nova Aliança até a consumação dos tempos e feitos em seu nome, memória de Jesus. Para São João Crisóstomo a eucaristia leva a pessoa a amar Jesus Cristo nos pobres, nos necessitados, porque a pessoa une-se a Cristo, aos irmãos e irmãs no geral e com aquelas pessoas mais necessitadas e pobres, para um dia a pessoa se unir com o Senhor, pela vida eterna.

 

[1] Cfr. São João Crisóstomo. Comentário às Cartas de São Paulo/2. São Paulo: Paulus, 2010.

[2] Cfr. Idem, pg. 385.

[3] Cfr. Ibidem, pg. 385.

[4] Cfr. Ibidem, pg. 386.

[5] Cfr. Ibidem, pg. 386.

[6] Cfr. Ibidem, pg. 386.

[7] Cfr. Ibidem, pg. 387.

[8] Cfr. Ibidem, pg. 387.

[9] Cfr. Ibidem, pg. 387.

 

Foto: © José Luiz Bernardes Ribeiro

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saint_John_Chrysostom_at_Chora.jpg Acesso em: 27 mar 2024

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