Marabá, 19 de junho de 2024

A eucaristia, alimento material e espiritual em vista da vida eterna.

29 de maio de 2024   .   

                                        Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.
Nós celebramos a solenidade do Corpus Christi, festa do Santíssimo
Corpo e Sangue de Cristo. É a grande festa eclesial e é o grande alimento
neste mundo e um dia ele dar-nos-á a graça para participar da vida eterna.
Esta festa é também a manifestação pública do Senhor sacramentado porque
neste dia as comunidades vão para as ruas das cidades ou nos campos com o
Senhor presente na eucaristia para que ele seja adorado pelas pessoas e para
que ele abençoe a todo o povo de Deus, as famílias, o mundo, pedindo as
graças da paz e do amor.
Em 2004, São João Paulo II na sua carta apostólica 1 , convocava o
episcopado, clero e fiéis, para a reflexão sobre o sacramento da eucaristia e
a sua centralidade na comunidade eclesial; Ele também realçava a
centralidade de Cristo não só na Igreja, mas na história da humanidade.
Tudo é recapitulado nele 2 . A eucaristia não expressa comunhão só na vida
da Igreja, mas ela é também projeto de solidariedade em beneficio de toda a
humanidade 3 . Por isto mesmo a eucaristia celebrada na comunidade é
projeto de missão em direção aos outros. Da mesma forma estes pontos
podem ser percebidos em alguns padres da Igreja a centralidade em Cristo e
a sua realização na comunidade cristã.
A eucaristia, ação de graças.
A eucaristia(Eucharístia), termo grego referente à ação de graças,
designou ceia cristã, a ação eucarística 4 . Na comunidade primitiva a
celebração eucarística e a partilha dos alimentos formavam um só conjunto
de coisas de modo a chamar-se ágape, ceia fraternal. Ela também foi
chamada de fractio panis, a fração do pão 5 .
A eucaristia era celebrada na unidade.
A Didaqué, um dos documentos mais importantes no período apostólico e após-
apostólico, foi chamado de “Legislação das Comunidades”. Esta obra enfatizava a
celebração, feita no dia do Senhor, o domingo pois os fiéis se reuniam para partir o pão
e para agradecer os benefícios recebidos. Tal celebração era vivida num contexto de
reconciliação com o próximo porque aquele que estiver em desavenças com o seu
companheiro ou companheira, não poderia juntar-se à comunidade para que o seu
sacrifício não fosse profanado 6 .
A benção sobre o pão e o vinho.
A obra apresentou também uma oração sobre o pão partido e sobre o cálice 7 . Ela
previa uma oração de agradecimento depois da eucaristia: “Nós te agradecemos, Pai
santo, por teu santo nome, que fizeste habitar em nossos corações, e pelo conhecimento,
pela fé e imortalidade que nos revelastes por meio do teu servo Jesus. A ti a glória para
sempre. Tu, Senhor Todo-Poderoso, criaste todas as coisas por causa do teu nome, e
1 Cfr. Carta Apostólica do Santo Padre João Paulo II ao episcopado, clero e fiéis. Mane vobiscum,
Domine, para o ano da eucaristia. Paulus e Edições Loyola, São Paulo, 2004.
2 Cfr. Ef 1,10; Cl 1,15; Idem, p. 20.
3 Cfr. Idem, p. 24.
4 Cfr. A Hamman. “Eucaristia”, In Dicionário patrístico e de Antigüidades Cristãs, Vozes, Paulus,
Petrópolis, RJ, 2002, p. 527.
5 Cfr. At 2,42-47.
6 Cfr. Mt 5,23-24; Didaqué, XV, O Catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje.
Paulinas, Caxias do Sul, 1989.
7 Cfr. Idem, IX, 1-3.

deste aos homens o prazer do alimento e da bebida, para que te agradeçam. A nós,
porém, deste uma comida e uma bebida espirituais, e uma vida eterna por meio do teu
servo” 8 . Assim este escrito exaltou a eucaristia como alimento sustentador à vida
comunitária e espiritual.
A eucaristia e a concórdia.
São Clemente foi bispo de Roma de 92 até 100/101. Na Carta aos Coríntios,
solicitou a concórdia e a paz entre os seus membros, porque aquela comunidade se
revoltou contra os seus dirigentes, bispos, presbíteros e diáconos numa espécie de
pedido de demissão dos mesmos. Para isto ele suplicava a todos a unidade: “Como há
um só Deus, há um só Cristo, também um só Espírito de graça, que foi derramado sobre
nós, e uma só vocação em Cristo” 9 . Ele falou também que Deus ordenou concretizar
coisas em sua memória; aos sacerdotes foram conferidos os ofícios litúrgicos,
entendidos na ligação da eucaristia, aos levitas os serviços do culto e os leigos os seus
próprios serviços 10 .
A eucaristia e a caridade.
No inicio do segundo século surgiu a figura de Santo Inácio de Antioquia, bispo.
A eucaristia é louvor e súplica a Deus; ela exigia fé e caridade, permitindo encontrar o
Cristo e a vivência da ágape, do amor. 11 Ela estava ligada ao martírio, forma de
seguimento a Cristo até às últimas conseqüências. Desta forma, Santo Inácio suplicou à
comunidade de Roma que não impedisse o seu maior desejo que era o martírio para
assim ser trigo de Deus, ser moído pelos dentes das feras para assim apresentar-se trigo
puro diante de Cristo 12 .
Para ele a eucaristia era presidida pelo bispo sem o qual não existiriam batismo,
nem ágape, nem eucaristia. Deve-se considerar legitima a eucaristia realizada pelo bispo
ou o seu delegado 13 .O bispo de Antioquia também realçou os efeitos da eucaristia; na
afirmação de que ela tinha um poder de destruição contra Satanás porque as suas forças
eram vencidas e o seu poder demolido 14 . Ela levava à unidade porque houve uma carne
em Cristo Jesus e um só cálice que nos uniu no seu sangue, como também um só era o
altar e um só era o bispo unido ao presbitério, diáconos e o povo 15 .
O oitavo dia.
A Carta de Barnabé, escrito do século II falou do oitavo dia como o dia no qual
Jesus ressuscitou dos mortos e subiu aos céus. Neste dia, ela tinha presente a celebração
eucarística, pois era chamado também o primeiro dia da semana. Para o autor deste
escrito tratava-se de um dia da nova criação e por isto havia a necessidade de celebrá-lo
com fé e amor. 16
A celebração dominical.
São Justino de Roma, martirizado em 165, deu uma importante descrição da
celebração dominical e da eucaristia. Ele afirmou que no dia chamado “do sol”, os fiéis
que moravam em cidades ou nos campos, se reuniam, liam as Memórias dos Apóstolos,
isto é, os evangelhos ou os escritos dos profetas. Um leitor fazia tais coisas, e logo em
seguida havia a exortação do presidente. Em seguida, elevavam-se a Deus preces e
depois se oferecia pão, vinho e água e o presidente elevava até Deus tais oferendas e
8 Cfr. Ibidem, X, 1-3.
9 Cfr. Clemente aos Coríntios , 46,6. In Os Padres Apostólicos, Paulus, São Paulo, 1995.
10 Ibidem, 40,5.
11 Cfr. Inácio aos Esmirniotas, 8,2, In: Padres Apostólicos, Idem.
12 Cfr. Inácio aos Romanos, 4,1, Idem.
13 Cfr. Inácio aos Esmirniotas, 7,1; 8,1, Idem.
14 Cfr. Inácio aos Efésios, 20, 2, Ibidem.
15 Cfr. Inácio aos Filadelfienses, 4, Ibidem.
16 Cfr. Carta de Barnabé, 15,9, Ibidem.

todos diziam “Amém”. Depois havia a distribuição e participação para cada um dos
presentes dos alimentos consagrados e o seu envio aos ausentes através dos diáconos 17 .
Teologia da eucaristia.
São Justino deu à tradição uma teologia da eucaristia. Ele afirmava que a
eucaristia que os cristãos tomavam através da celebração não era um pão comum ou
bebida ordinária, mas ela estava em ligação com Jesus Cristo, feito carne e sangue para
a nossa salvação. Tal alimento sobre o qual era dita ação de graças e na qual houve uma
transformação, o nosso corpo e sangue se nutriam, é a carne e o sangue daquele mesmo
Jesus encarnado. Este ensinamento, segundo São Justino, foi transmitido pelos
apóstolos quando Jesus disse para eles de realizar tais coisas em sua memória 18 .
A eucaristia, lugar central do mundo e da história.
No final do segundo século houve a figura de Santo Ireneu de Lião, bispo. Ele
insistiu na sua doutrina que a eucaristia devia ocupar o centro da visão de mundo e da
historia. Ele criticou os gnósticos porque estes negavam a presença de Cristo na
eucaristia e da ressurreição da carne. Ele ressaltou desta forma, a presença real do corpo
e do sangue de Cristo na eucaristia; assim as espécies do pão e do vinho não eram
apenas salvos mas salvadores, veículos da graça, porque neles estavam o corpo e o
sangue de Cristo. A eucaristia não possuía um sentido mágico como desejava o mago
Marcos quando ele colocava no vinho algo de vermelho 19 ; ela era a celebração do amor
misericordioso de Deus; era o sacrifício da Nova Aliança dado de uma forma integral.
A eucaristia, fonte de vida.
Santo Ireneu dizia também que a eucaristia fortificava a carne humana. Assim
seria impossível negar que a carne fosse incapaz de receber o dom de Deus que
consistia na vida eterna pelo fato de ser alimentado pelo corpo e sangue de Cristo. Ele
fez uma analogia a respeito da eucaristia; da mesma forma como a cepa de videira
frutificava no tempo próprio e o grão de trigo ao cair na terra floresciam em espigas
para colher o fruto, tais espécies quando esmagadas ao receberem a palavra de Deus
tornavam-se a eucaristia, sendo o corpo e o sangue de Cristo, da mesma forma os nossos
corpos alimentados pela eucaristia ainda que serão depostos na terra e decompostos,
eles ressuscitarão para a glória de Deus Pai que irá conceder-lhes os dons da
imortalidade e da incorruptibilidade ao que estava na fraqueza 20 .
A eucaristia como sacramento
Tertuliano foi um dos primeiros escritores de língua latina, o qual ele falou da
eucaristia como sacramentum 21 , o convívio, a Ceia do Senhor. Ele era convicto da
presença real de Cristo na eucaristia porque confrontou os marcionitas que a negavam
pois eles não acreditavam que Cristo tivesse morrido sobre a cruz. Desta forma, se fosse
assim, para Tertuliano, Cristo não estaria presente sobre os altares na comunhão.
Tertuliano disse também que Cristo era o pão da vida; aquele que desceu do céu.
Assim Ele criticou todos aqueles que o ignoravam, sobretudo os judeus, o pão que veio
lá de cima, prometido aos seus fiéis, porque ele ligava-os à vida divina 22 . Ele tinha
presente a assembléia eucarística onde se realizava a eucaristia, a qual proporcionava a
reconciliação entre as pessoas. Quem comungava era chamado a viver o amor do
Senhor no meio das pessoas e da comunidade.
17 Cfr. Justino de Roma, I Apol. 67. Paulus, São Paulo, 1995.
18 Cfr. Lc 22,19-20.
19 Cfr. Ireneu de Lião. I, 13,2. Paulus, São Paulo, 1995.
20 Cfr. Idem, V, 2,3.
21 Cfr. Tertulliano. De Corona, III, 3. Introduzione, testo, traduzione e note a cura de F. RUGGIERO.
Arnoldo Mondadori Editore,Milano, 1992.
22 Cfr. Tertulliano. La resurrezione dei morti, XXVI, 10, Traduzione, introduzione e note a cura di C.
MICAELLI. Città nuova editrice, Roma, , 1990.

Cristo é o alimento das pessoas.
Ainda no terceiro século, Orígenes valorizou o sacramento da eucaristia porque
Cristo era o alimento das pessoas, nutrimento de suas almas. Ele reconheceu a presença
dele nas espécies do pão e do vinho, em uma forma misteriosa. No entanto esta presença
alegrava os discípulos e todos aqueles que o tomavam como um vinho novo, não
temperado porque através dele recebia-se a remissão dos pecados 23 . Ele tinha presente o
memorial no qual Cristo mandou que os seus discípulos o celebrassem em seu nome,
perpetuando desta forma a eucaristia na comunidade cristã.
É possível ver alguns pontos importantes a respeito da eucaristia que ela era o
memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo, recordando as coisas que o Senhor
fez na última ceia; ela devia ser feita em união com a Igreja e comunidades dos fiéis; ela
era alimento para vida divina, a qual preparava à incorruptibilidade. Os escritores
colocaram uma manifestação de fé pela presença real de Cristo na eucaristia; quem a
recebesse seria impulsionado à uma prática de vida feita em comunhão consigo mesmo,
com os outros e com Deus; a pessoa era chamada a fazer caridade sobretudo com os
mais necessitados; ela era alimento que possibilitava o ser humano à superação das
tentações e por fim a eucaristia devia ser realizada com a presença de um ministro
designado pela Igreja: bispo e/ou presbítero. Os ensinamentos que os padres elaboraram
a respeito da eucaristia sirvam para iluminar a nossa realidade para que esta fonte da
vida no seguimento a Cristo possibilite a comunhão de todos com o Senhor Jesus, pão
descido do céu para a nossa vida presente e futura.

23 Cfr. Mt 26,28: Origene. Omelie su Geremia, XII, 2, Introduzione, Traduzione e note a cura di L.
MORTARI. Città Nuova editrice Roma, , 1995.

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