Marabá, 30 de junho de 2022

A figura do Precursor: São João Batista

02 de dezembro de 2021   .   

Foto: iStock

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

São João Batista foi o Precursor do Messias, Jesus Cristo. Ele foi a voz que clamou no deserto (cfr. Jo 1, 23; Mt 3,3 Lc 3, 4) pedindo a todo o povo a conversão de vida e o batismo para o perdão dos pecados cfr. Mt 3,11, em vista da pessoa maior que ele, o Senhor Jesus (cfr. Lc 3,16). O advento é um tempo importante para a preparação ao nascimento do Messias em nossa realidade e ele apresenta a figura de João em vista da salvação. Veremos a seguir como a vinda do Messias foi percebida pelos padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos.

            O profeta João Batista.

            Sendo considerado como o último e o maior profeta do AT, João Batista apareceu em alguns afrescos dos cemitérios, da Igreja antiga, em relação ao batismo de Jesus[1]. Ele apareceu com a bandeira do cordeiro de Deus porque ele apontou para Cristo Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo(cfr. Jo 1, 29). O seu culto estava presente nos Padres da Igreja antiga desde os primeiros tempos[2].

            João Batista, o Precursor.

            São Justino de Roma no Diálogo com o judeu Trifão, afirmou a importância do Precursor, João, para dizer que Jesus não era apenas homem, mas era o Filho de Deus na carne. O Senhor foi precedido com o arauto que nele esteve o espírito de Elias, João o profeta do povo escolhido. Sentado perto do rio Jordão gritava a todo o povo que ele batizava com água para a penitência, mas viria um outro que batizaria com Espírito Santo e com fogo (cfr. Mt 3,11-12; Lc 3,16)[3].

            São Justino também disse a Trifão, que era preciso a figura de João como batizador e profeta, preceder nosso Senhor Jesus Cristo, realizando a profecia de Isaias que deveria ter paz e justiça nos dias do Senhor. Uma voz grita no deserto a necessidade de preparar o caminho do Senhor; é preciso tornar retas as veredas de Deus. Todo barranco será nivelado e todo monte e colina será aplainado. A glória do Senhor será revelada e todo ser humano verá a salvação de Deus(cfr. Is 40, 1-5). Desta forma era importante a presença de João como o último dos profetas do qual o Cristo veio para realizar as profecias e a palavra de João no qual o Senhor disse: “A Lei e os Profetas até João Batista; daí por diante o reino dos Céus sofre violência, e são os violentos que o arrebatam. Se quereis aceitar, este é Elias que devia vir. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”(Mt 11, 12-15)[4].

            Um tempo novo estava para chegar.

            Eusébio de Cesaréia, bispo na Palestina, século IV, levantava uma pergunta importante na preparação para a vinda de Jesus Cristo: Por que João Batista não foi pregar nas cidades e nem mesmo em Jerusalém, mas no deserto? O fato era que um tempo novo estava para chegar, tempo de graça, de amor, com o Senhor Jesus, preparado por João. As periferias aceitariam mais a sua mensagem que os centros urbanos. Sem dúvida, Eusébio disse aos que levantavam esta pergunta viam que em João as multidões o atingiam tanto de admirá-lo e em acreditar a ele que proclamava um batismo de conversão de modo que de todos os lugares acorriam a ele no deserto, pois era o enviado do Senhor Deus, preparando os caminhos do Senhor[5]

            Os profetas preanunciaram os eventos futuros.

            Eusébio de Cesaréia dizia também que por muito tempo os profetas anunciaram os eventos da vinda do Salvador ao mundo inteiro: “Lembrem-se e se convertam ao Senhor todos os confins da terra, e adorarão na sua presença todas as famílias das nações. Pois do Senhor é o reino, e é ele quem dominará as nações”(Sl 21, 28-29). Numa outra passagem encontra-se a afirmação da Sagrada Escritura que é para dizer entre as nações que o Senhor reina, porque ele julgará os povos com retidão (cfr. Sl 95,10). Os profetas eram inspirados por Deus. A missão do Senhor Jesus que desceu do céu e veio até o ser humano, o seu reino se estende a todas as nações, o conhecimento de Deus é dado para as nações e para os povos[6].

            O Cordeiro de Deus.

            Eusébio de Cesaréia ainda afirmou a realização de uma profecia proveniente de Jeremias que afirmou que o profeta, preanunciando Jesus Cristo, era como um cordeiro manso levado ao sacrifício (cfr. Jr 11,19). O Precursor João Batista selou essas previsões indicando a manifestação do nosso Salvador. Quando o Precursor o viu e indicando-o aos presentes que aquele que se referiam as profecias, proclamou: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Eis, portanto o Senhor, o cordeiro de Deus que purifica o universo inteiro, o sacrifício puro de toda a mancha e de todo pecado, o cordeiro profetizado na qual se encontra a remissão dos pecados precedentes e nas quais os judeus esperaram a libertação de seus pecados[7].

            João Batista, o enviado por Deus.

            Eusébio de Cesaréia ainda disse que João Batista seria o enviado, espécie de anjo do Senhor. Ele lia a palavra do Senhor no AT que falava do envio de um anjo à frente para guardar o povo de Deus pelo caminho e o conduzi-lo no lugar que o Senhor preparou. Ele deveria ficar atento a ele e escutasse a sua voz, e não ser-lhe rebelde porque nele está o nome de Deus e fazer tudo quanto o Senhor disser para ele, pois, o anjo do Senhor o conduzirá para a terra prometida (cfr. Ex 23,20-23). Para o bispo de Cesaréia o nome do qual a palavra de Deus falou é o Senhor Jesus. E quem irá adiante para preparar o caminho dado pelo anjo é João, que era um ser humano, homem, do qual foi dito dele, pelo Senhor Jesus ao referir-se a São João Batista, pessoa simples, pobre, precursor: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente; para preparar o teu caminho diante de ti”(Mt 11,10)[8].

            O envio de Patriarcas e de Profetas.

            Santo Agostinho, bispo de Hipona, nos séculos IV e V teve presente, que o Senhor Jesus Cristo, Deus acima de todos, bendito pelos séculos, mesmo antes de aparecer na carne e se manifestar aos olhos das pessoas, dos seres humanos, como homem, mediador entre Deus e os homens, enviou os santos Patriarcas e os Profetas com o fim de anunciar o seu futuro nascimento, a sua vinda na humanidade para a salvação humana de todas as pessoas[9]. Entre estes esteve a figura de João Batista, o Precursor do Senhor.

            O tempo do advento é tempo de vida nova para viver a palavra de Deus em nossa realidade de discípulos missionários em saída. A pessoa de São João Batista ajuda-nos a viver o seguimento a Jesus Cristo, porque ele aponta para o Senhor como o maior que ele, sendo uma voz que clama no deserto a preparação dos caminhos do Senhor no coração, na família, na comunidade e na sociedade. Nós sejamos como São João Batista, as pessoas que preparam o caminho de Deus e também se deixam preparar para viver ao amor a Deus, ao próximo como a si mesmo, em vista do nascimento do Senhor Jesus Cristo.

[1] Cfr. G. Santagata. Giovanni Battista. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane, diretto da Angelo Di Berardino, F-O. Marietti, Genova, 2007, pg. 2189.

[2] Cfr. M. Starowieyski. Giovanni Battista. In: Idem, pg. 2187.

[3] Cfr. Justino de Roma. Diálogo com Trifão, 49, 1-3. Paulus, São Paulo, 1995, pgs. 181-182.

[4] Cfr. Idem, 50, 1-3, pgs. 183-184.

[5] Cfr. Eusebio di Cesarea. Dimostrazione Evangelica, IX,5. Introduzione traduzione e note di Paolo Carrara. Paoline, Milano, 2000, pg. 707.

[6] Cfr. Eusebio di Cesarea. La Preparzione Evangelica, I, 9-10, a cura di Gerardo di Nola. Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2001, pg. 57.

[7] Cfr. Eusebio di Cesarea. Dimostrazione Evangelica, I, 17-18, pg. 190.

[8] Cfr. Eusebio di Cesarea. Dimostrazione Evangelica, IV, 8, pg. 404.

[9] Cfr. Santo Agostinho. Primeira catequese aos não cristãos, III,6. Paulus, São Paulo, 2013, pgs 75-76.

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