Marabá, 16 de junho de 2024

A importância do XVº Intereclesial das CEBs pela missão e pela vida plena no Senhor

19 de julho de 2023   .   

Foto: CEBs do Brasil

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

            O encontro está se realizando em Rondonóplis, Mato Grosso com o tema: CEBs, Igreja em saída na busca da vida plena para todos e o seu lema: “Vejam eu vou criar novo céu e uma nova terra” (Is 65,17ss). Muitas lideranças das Dioceses e Prelazias da Igreja no Brasil e de outros lugares do Continente participam deste encontro muito importante na vida da Igreja do Senhor Jesus Cristo. É importante estar em comunhão com todas as pessoas participantes e com toda a equipe organizadora das CEBs, da Diocese de Rondonópolis, MT, para que tudo se realize conforme a vontade de Deus Uno e Trino. O Texto-Base segue a metodologia do ver, julgar e agir.

            Ver: A realidade que interpela.

            O tema à vida plena é uma referência à escatologia, às realidades últimas, junto de Deus, porque Ele é a vida plena. No entanto em Jesus está a visão da vida plena, como Mestre, como enviando do Pai porque nela está a vida eterna, como Pedro disse que Ele tinha palavras de vida eterna (Jo 6,68), mas também pelos milagres que Ele realizava junto aos pobres, aos doentes. A missão da Igreja é o seguimento a Jesus Cristo, ajudando pelo restabelecimento da dignidade humana em todas as pessoas[1].

            Vida digna.

            O Texto-Base fala da vida digna na qual a Igreja, como CEBs compromete-se com todas as pessoas. Na sociedade atual a vida digna refere-se num mundo livre das formas de violência, exploração, exclusão e discriminação[2]. A vida digna é também a integração das dimensões da existência consigo mesmo, com os outros, com o meio ambiente e com Deus.

            A renda e a desigualdade social.

            A vida digna possui uma referência fundamental com a distribuição de renda e a desigualdade social. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, em relação à distribuição de renda. A distribuição de rendimentos na população coloca uma grande maioria do povo brasileiro que recebe pouco da renda nacional, enquanto uma pequena parcela da população recebe uma renda maior. Um por cento da população mais rica recebe vinte oito vírgula três por cento enquanto quarenta por cento do povo brasileiro recebe dez, vírgula quatro por cento[3].

            A vida digna tem referência também em relação ao mundo do trabalho, pois ainda que a taxa de desemprego diminua com o esforço do governo e da sociedade civil, fazendo a pessoa ter uma moradia nova pelo esforço do trabalho, uma grande parcela do povo não tem moradia digna[4].

            A violência no País.

            O Texto-Base coloca o Brasil como um pais muito violento, com mais de cinqüenta mil mortes por ano, na grande maioria, mortas, com uso de seus autores por armas de fogo[5]. São percebidos homicídios, feminicídios, disputas por controle territorial do comercio de drogas, ações de extermínio, balas perdidas, casos de violência das polícias, contra a diversidade de pessoas do gênero, povos indígenas e assassinatos no campo[6]. Estes e outros dados chamam a atenção de toda a população brasileira para a realização de obras em favor da vida digna, como o Senhor quer de todos os seus seguidores e seguidoras.

            Políticas Públicas

            As políticas públicas ajudam as pessoas a terem uma vida digna diante das desigualdades políticas, sociais, econômicas das pessoas. Há o reconhecimento nos governos pelas políticas públicas, para melhorar a qualidade de vida de modo que todos façam o esforço para superar as desigualdades sociais. O Texto-Base não deixa também de mencionar a crise política, corrupções dos governos, os desmontes das políticas públicas, as falsas noticias[7], pois estes fatores não ajudam a ter uma vida digna conforme o plano do Senhor em relação às pessoas.

            As políticas públicas referem também a superação da crise ambiental na qual o pais enfrenta sérios problemas, como o consumo de energia, a construção de grandes usinas hidrelétricas que se de um lado trouxeram desenvolvimentos, por outro lado tem presentes os impactos com a natureza e a vida dos povos indígenas. Os desmatamentos na Amazônia, os garimpos ilegais preocupam a sociedade, a Igreja e o mundo[8].

            A crise sanitária está ligada também pelo novo Coronavírus que encontrou um pais despreparado para uma emergência sanitária desta envergadura[9]. A pandemia mostrou a desigualdade entre estudantes pobres e aqueles com melhores condições de vida, pois se alguns tiveram acesso rápido pela internet, milhares de estudantes tiveram um atendimento precário pela internet em vista dos estudos[10]. É preciso lutar por uma vida digna, na superação do racismo e do machismo na sociedade para assim todos viverem na paz e no amor.

            Uma nova visão das coisas.

            É possível uma nova visão das coisas através da solidariedade com os pobres, como teve na pandemia, manifestados pelas instituições como a CNBB: Conferência Nacional dos Bispos no Brasil, os seus posicionamentos públicos, a economia de Francisco e Clara pelo Papa Francisco, o Pacto educativo global, o cuidado com a casa comum e os projetos de ajuda aos mais necessitados pelas comunidades, paróquias e dioceses[11]

            Julgar: Horizontes da Esperança.

            Um novo céu e uma nova terra.

O tema e o lema têm proveniência do profeta Isaias em referência aos novos céus e à nova terra que une sonhos, utopias e uma realidade que não mata a esperança com o Senhor Deus para a realidade humana unindo dois rios da utopia, que é o tempo para amanhã com o rio do rito, que é dado no hoje[12]. O Senhor diz: “Vejam! eu vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 13). O profeta colocou também uma realidade marcada pela ausência de anseios que se deseja viver, portanto uma realidade dura, sofrida, mas que haverá uma utopia que a alimenta em vista de uma transformação da graça de Deus diante da realidade de sofrimentos[13]. A esperança é dada também pela glória de Deus que a ilumina, e sua lâmpada, sendo, Jesus, o Cordeiro (Ap 21,23). Um novo céu e uma nova terra serão criados onde não mais existirão opressão, exploração, injustiça, perseguição, mas sim a paz e o amor[14].

Uma nova tenda.

Será Deus a colocar sua tenda, sua morada na humanidade. Nesta nova cidade circularão em igualdade e reciprocidade, desaparecendo as desigualdades, e onde haverá a nova comunidade universal, a nova sociedade, a nova humanidade atuando com o projeto histórico de Deus no novo céu e na nova terra[15].

Jesus de Nazaré, fermento na massa.

Jesus de Nazaré é a palavra de Deus que se fez carne (Jo 1,14). Ele é o fermento na massa que torna presente na história a utopia do profeta pós-exílico e antecipa a profecia de João. Ele é o cumpridor das Escrituras (Lc 4,21), proclama bem-aventurados os pobres, sendo o Cordeiro imolado para a salvação humana. Ele morre na cruz, mas ressurge enviando os seus discípulos ao mundo, garantindo também a presença do Espírito Santo (Mt 28,19: At 1,8). O Ressuscitado envia os seus discípulos dando continuidade à sua missão[16].

Tempo Novo.

Jesus inaugurou o tempo novo, ao dizer na sinagoga que aquela passagem da Escritura se cumpriu (Lc 4,21), pois com Ele começou a vida nova, e esta se realiza no cotidiano da história até sua plenitude no Reino[17]. A partir de Pentecostes, o movimento de Jesus, com os seus discípulos, discípulas espalhou-se rapidamente por outros lugares, nações, sendo no início visto como um movimento de contestação no interior do judaísmo, mas as comunidades foram se formando centradas nas casas onde essas eram animadas, pela presença do Ressuscitado, o Espírito Santo, tendo em frente os missionários, missionárias[18], os quais participavam do Templo e celebravam nas casas, mas aos poucos foram criando uma liturgia própria, centralizada na nova visão da Páscoa[19]. Os seguidores de Jesus foram vivendo a sua fé na presença do Cristo Ressuscitado, com a iluminação do Espírito Santo e a mão do Pai, foram constituindo a Igreja do Senhor e pela primeira vez em Antioquia, os discípulos de Jesus foram chamados de cristãos (At 11,26), onde eles souberam ler os sinais dos tempos e dar uma resposta adequada às interpelações na Igreja e no mundo[20]. Com a presença de Paulo, evangelizar é criar e manter comunidades, porque ele se tornou o apóstolo dos gentios, dos pagãos que evangelizava nas suas viagens missionárias e formava comunidades[21]. A criação das Igrejas domésticas possibilitou maior influência e participação das mulheres na vida das comunidades, aparecendo como elos vivos na rede formada pelas casas e igrejas domésticas[22].

Igreja doméstica.

Na atualidade Igreja doméstica é a vivência da fé cristã de forma normal, corresponsavel, no dinamismo da vida dos convertidos e convertidas ao Reino de Deus[23]. É o cultivo diário da vida nova, no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo. A Igreja doméstica necessita de conversão, superando a violência, sobretudo em relação à mulher, às pessoas idosas, para que seja evangelizada e tenha a formação pelas Comunidades eclesiais de base, alimentada também pela oração e os círculos bíblicos[24].

Sinodalidade e casa comum.

As CEBs são convidadas a fazer junto com todo o povo de Deus um caminho de sinodalidade, caminhar juntos, A sinodalidade expressa comunhão e participação em uma Igreja em saída para as periferias ao encontro com Deus[25], como muito bem expressa o Papa Francisco para toda a Igreja. O Papa Francisco solicita também de todo povo e dos fieis cristãos, católicos e católicas o cuidado com a casa comum, casa de todas as pessoas como o Criador criou para todo o mundo. As CEBs tenham práticas de cuidado com a Casa Comum, ponto central do sínodo da Amazônia, pautada por uma vida sustentável na defesa dos biomas, no respeito dos povos do campo, das cidades e das florestas[26].

O bem viver, a alegria do evangelho, a força missionária, a fraternidade e amizade social nas CEBs.

A proposta do bem viver é uma prática dos povos indígenas, que visa viver em comunidade, em harmonia com as pessoas, compartilhando e trabalhando em vista do Reino de Deus[27]. As CEBs, vivendo sob a luz de Cristo e iluminadas pela Palavra de Deus, celebram a sua presença na comunidade e na liturgia[28] o bem viver com todas as pessoas, sobretudo com os mais necessitados. A Encíclica do Papa Francisco Evangelii Gaudium, a alegria do evangelho dá uma confiança que as CEBs são obra de Deus e no seguimento de Jesus faz uma entrega generosa mantendo serenidade na presença do Ressuscitado[29]. Pela força da Palavra de Deus, as CEBs são verdadeiras comunidades de discípulos e discípulas missionários[30] levando a Palavra de Jesus para todas as pessoas, sobretudo os pobres e os necessitados. O Papa Francisco propõe para todas as pessoas a fraternidade e a amizade social como forma de vida a partir do Evangelho do Senhor. O mundo globalizado torna as pessoas mais próximas, mas isso não significa que as faz irmãos e irmãs. Enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra grande parte tem os seus direitos desprezados, violados (FT 22). O projeto das CEBs é o da fraternidade superando o isolamento e reforçando a proximidade, a cultura do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs[31]

O agir das Comunidades Eclesiais de Base.

Em comunhão com o Senhor, com o Papa Francisco, as CEBs buscam uma contribuição para a construção sinodal da Igreja católica. O objetivo é reacender o novo jeito de ser Igreja em comunhão com o sínodo da Amazônia. O mundo novo, proposta pela Palavra de Deus é um estímulo a lutar contra a morte prematura e fazer a vida ser vivida em plenitude. É uma Aliança feita com Deus e com a humanidade. Tudo isso é apresentado como a criação de um novo céu e uma nova terra (Is 65,17; Ap 21,1)[32].

O agir das CEBs nasce pela compreensão do messianismo de Jesus e é no compromisso pelo seguimento com o seu projeto de paz e de amor[33]. A Igreja é chamada a ir em busca das pessoas, construindo uma Igreja com rosto Amazônico, ameríndio, na centralidade da vida, no cuidado com a Casa Comum, na luta pelas políticas públicas, sendo uma Igreja missionária, servidora, ministerial. Toda a Igreja é chamada a fazer o caminho na sinodalidade, pela diversidade de vocações e ministérios, na edificação do Corpo de Cristo (LG 32)[34]. Os cristãos leigos e leigas nas CEBs desempenham um papel ativo na construção da Igreja de Cristo e no exercício de sua missão[35]. Todos são responsáveis pela vida e pela missão de anunciar o evangelho de Cristo às pessoas, sobretudo aos necessitados. É preciso colocar-se sempre no caminho de Jesus e da Igreja para viver a fé, a esperança e a caridade neste mundo e um dia na eternidade. Tudo ocorra bem no Décimo Quinto Intereclesial das CEBs.

 

[1] Cfr. 15º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base. CEBs: Igreja em saída, na busca da vida plena para todos e todas!Cuiabá, MT, Ed. dos Autores, 2022, pg. 25.

[2] Cfr. Ibidem, pg. 25.

[3] Cfr. Ibidem, pg. 29.

[4] Cfr. Ibidem, pg. 37.

[5][5] Cfr. Ibidem, pg. 37.

[6] Cfr. Ibidem, pgs. 39-40.

[7] Cfr. Ibidem, pgs. 45-50.

[8] Cfr. Ibidem, pgs. 51-55.

[9] Cfr. Ibidem, pg. 56.

[10] Cfr. Ibidem, pgs. 57-58.

[11] Cfr. Ibidem, pgs. 67-68.

[12] Cfr. Ibidem, pg. 78-79.

[13] Cfr. Ibidem, pgs. 82-83

[14] Cfr. Ibidem, pgs. 85-86.

[15] Cfr. Ibidem, pg. 87.

[16] Cfr. Ibidem, pg. 88.

[17] Cfr. Ibidem, pg. 89.

[18] Cfr. Ibidem, 90.

[19] Cfr. Ibidem, pg. 91.

[20] Cfr. Ibidem, pg.s 92-93.

[21] Cfr. Ibidem, pg. 93.

[22] Cfr. Ibidem, pgs 94-95.

[23] Cfr. Ibidem, pg 98.

[24] Cfr. Ibidem, pg. 100.

[25] Cfr. Ibidem, pg. 202.

[26] Cfr. Ibidem, pg. 103.

[27] Cfr. Ibidem, pg. 106.

[28] Cfr. Ibidem. pgs. 106-107.

[29] Cfr. Ibidem, pg. 108.

[30] Cfr. Ibidem, pg. 110.

[31] Cfr. Ibidem, pgs. 113-115.

[32] Cfr. Ibidem, pg. 123.

[33] Cfr. Ibidem, pg. 124.

[34] Cfr. Ibidem, pgs. 125-130.

[35] Cfr. Ibidem, pg. 131.

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