Marabá, 30 de junho de 2022

Encontro de Santarém: 50 anos de vida e de evangelização na região amazônica

06 de junho de 2022   .   

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

            De 06 a 09 de junho de dois mil e vinte e dois, ocorrerá o quarto encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, meio século após o encontro de Santarém fazendo memória do encontro que teve em 1972. São cinquenta anos de vida e de evangelização da Igreja na Amazônia. São Paulo VI dizia que Cristo aponta para a Amazônia. É importante fazer recordação, uma evocação fundamental deste primeiro encontro que iluminou outros encontros para a Igreja da Amazônia anunciar a Palavra de Deus, realizar os sacramentos, formar comunidades eclesiais missionárias, cuidar da casa comum, as águas, as florestas, os povos indígenas, os povos do campo, os povos da cidade, denunciar as injustiças e anunciar o Reino de Deus, a vida do Senhor Jesus nestas terras importantes que constituem a Amazônia Legal. Veremos a seguir os principais pontos que nortearam o encontro dos bispos em Santarém em 1972.

            As Prioridades da Pastoral na Amazônia, realidade amazônica com as esperanças e os desafios, perigos[1].

            O encontro ocorrido em Santarém, em 1972 falou de linhas prioritárias da Pastoral da Amazônia, sendo esta a sede da mais antiga prelazia do Brasil. O fato era que a Igreja da Amazônia, representada naquele tempo por seus pastores manifestava a sua crença e sua esperança no futuro da região, sabendo que estava em processo de muitas transformações. Os bispos falaram de valores humanos e sociais do amazônida, pela sua simplicidade, fortaleza e religiosidade, vinculadas à natureza. O documento levava em consideração as transformações econômicas e sociais da Amazônia, como a abertura de novas estradas, criação de novos núcleos humanos, a propagação dos meios de comunicação social, podendo levar a um futuro enriquecimento e libertação do ser humano amazônico, mas que não deixava de resultar com problemáticas sociais, ambientais e eclesiais.

            Os bispos não escondiam os perigos que esta realidade da Amazônia apresentou como as antigas e novas marginalizações, estruturas importadas ou opressivas, desenvolvimento econômico sem a presença do ser humano, violação de direitos básicos, como a posse da terra, injusta distribuição dos recursos materiais e a divulgação publicitária que alterava o enfoque da situação real.

            Tendo presente o Concilio Vaticano II, a Conferência de Medellin, a Igreja da Amazônia optou por prioridades, serviços pastorais.

Encarnação da realidade[2].

            A primeira prioridade elencada foi a encarnação da realidade, sendo essencial no momento da Amazônia, tendo como exemplo, a encarnação do próprio Cristo que é anterior e subjacente a toda a Pastoral supondo uma vontade permanente de conversão ao Verbo Encarnado.

            A encanação da realidade colocou a necessidade de um total entrosamento com a realidade do ser humano e do lugar onde a vida ocorria como centros urbanos ou rurais, novos núcleos humanos, comunidades indígenas, setores marginalizados e áreas de emergência. Era preciso a convivência com o povo, na simplicidade e na amizade diária, a superação de todo modelo importado, artificial de vida, para fomentar uma decidida criatividade cultural. O testemunho de se ver livre de todo o compromisso pessoal ou social, mas que ele provenha do evangelho do Senhor, da sua Igreja em vista da boa ação apostólica nesta região.

            A evangelização libertadora[3].

            Quanto a este ponto em Santarém, os bispos ressaltaram que a Páscoa de Cristo trouxe a liberdade total, plena ao ser humano. Para isso é fundamental uma evangelização sem dicotomias, na abrangência total do ser humano, o individuo e a sociedade. Esta evangelização envolveria a catequese, a liturgia fiel ao Espírito de Cristo e a sua mensagem, nas culturas, nos grupos, na natureza e do ser humano. A evangelização apontasse a libertação do ser humano, considerando os seus valores, a condição de pessoa humana e de filho de Deus. A Igreja tenha a sua palavra em relação à dignidade e à liberdade da pessoa humana e da família.

            Formação de agentes de Pastoral[4].

            O encontro de bispos ressaltou a formação de agentes de pastoral, pessoas que se comprometam com a pastoral da Igreja, com a diversidade de ministérios. A justificativa da formação vem pelo batismo, onde a pessoa cristã tem uma missão a cumprir na comunidade, pelo testemunho da verdade, pregar a boa-nova, viver os dons a serviço. Uma definição ocorreu em relação aos agentes de pastoral como pessoas dos ministérios ordenados, diáconos, ministros da eucaristia, dirigentes de cultos e de comunidades. Um dado fundamental na formação de agentes foram os elementos locais, autóctones, ainda mais que era do próprio ambiente que a liderança surgiria indicada pela comunidade. Os bispos reconheciam o valor de outros leigos e leigas que dariam uma valiosa contribuição na formação na Amazônia, desde que se inserissem na realidade da Amazônia.

A preparação técnica do agente de pastoral colocasse a formação integral pela ação e o trabalho em equipe. Os agentes de pastoral voltariam para as suas comunidades para viver nelas a formação recebida, também durante o período de formação. A espiritualidade evangélica seria levada em consideração para a formação dos agentes de pastoral. Os bispos deram também algumas áreas para serem estudadas como a teologia, catequese, bíblia, liturgia, e também antropologia, sociologia entre ouras matérias. Para aqueles que seguirem o sacerdócio, as indicações do episcopado regional e da Santa Sé estariam bem presentes.

            Comunidade Cristã de Base[5].

            Os bispos ressaltaram a importância da criação de Comunidade Cristã de Base na Pastoral Amazônica. Esta seria a sua riqueza e expansão de fé bem como pelo culto, sendo também o foco de evangelização (Medellin 15,10). A paróquia entraria neste ritmo pela sua pastoral. A comunidade edifica-se sobre a celebração da santíssima eucaristia por aonde vem a educação do espírito de comunidade (Medellin 9,3). As metas tinham presente a formação de comunidades ambientais de base, a passagem de desobrigadas sacramentalistas para centros comunitários.

            Pastoral Indígena[6].

            A Igreja na Amazônia, diziam os bispos no encontro de Santarém, é a maior responsável pelo índio. Ela realiza esta evangelização, como fruto da missão que lhe vem de Cristo e que a impele para estar em busca dos agrupamentos mais frágeis, mas reduzidos e mais suscetíveis nos seus valores e no seu destino. Santarém teve presentes o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) que trabalhava a serviço do índio e das missões indígenas. Um Diretório Indigenista era um ponto de referência da pastoral e também o Projeto de Lei do Estatuto do Índio visando estimular pistas positivas em relação ao silvícola.

            Estradas e outras frentes pioneiras[7]

            Os Bispos tinham presentes a transamazônica e outras estradas na quais novos problemas de pastoral solicitavam a atenção dos mesmos e da pastoral na Amazônia. Com a abertura das estradas, surgiram novos núcleos de colonização, alguns bem organizados nas Agrovilas, outros ocupavam acampamentos abandonados pelas companhias; mas também estas questões trouxeram desentendimentos entre agricultores e pecuaristas, também pela falta de observância das leis trabalhistas. Outras questões estavam presentes como a vinda de colonos de procedências diversas, e também a vinda de sacerdotes, religiosos, leigos e leigas que desejavam trabalhar no apostolado, deviam segundo os bispos, ser bem preparados dentro das exigências das necessidades locais. Uma preocupação missionária feita pela Igreja estava presente ao longo das estradas como as minerações, o garimpo, serrarias, fazendas agropecuárias, entre outras questões sociais e comunitárias. Algumas recomendações foram feitas no sentido de uma formação melhor para os agentes de pastoral com linguagem própria, reuniões de dirigentes de equipes das várias prelazias.

            Serviços[8].

            A organização pastoral foi se concretizando pelos missionários que estavam na Amazônia, pois muitos deles viviam isolados nas suas prelazias, de modo que era preciso partilhar experiências e reflexões comuns. Em unidade com o Episcopado Brasileiro foram criados os Regionais Norte 1 com sede em Manaus e o Norte 2 com sede em Belém. Uma equipe foi criada visando a unidade dos serviços no que se referiam às ajudas às Igrejas e na cooperação em projetos concretos.

            Institutos de Pastoral[9].

            Os Institutos de Pastoral serviam para a formação dos agentes de pastorais, leigos, leigas, religiosos ou clérigos para a Amazônia do momento atual. Eles teriam presentes a realidade sociológica e a situação do ser humano amazônida para que todos participassem da evangelização. Os institutos no momento daquele tempo, 1972, em Manaus era o CENESC: Centro de Estudos de Comportamento Humano, e, em Belém o IPAR: Instituto Pastoral Regional para que trabalhassem em conjunto na linha da complementaridade, troca de experiências e de conclusões. Os bispos falaram também de uma assessoria técnica e jurídica que orientasse as circunscrições eclesiásticas.

            Meios de Comunicação Social[10].

            Os bispos também falaram a necessidade da integração dos meios de comunicação social na pastoral orgânica da Amazônia, em vista da realização de suas linhas de ação. Era preciso para isso estruturar os métodos de preparação e aproveitamento de elementos profissionais que atuassem nos meios de comunicação social, apoiar um centro de produção e aproveitamento de programas adequados à cultura amazônica, e a necessidade de a Igreja atuar nos meios de comunicação social, televisão, rádio, imprensa dos centros urbanos e na rádio da zona rural.

            As conclusões do encontro eclesial apontaram um século e meio de independência do Brasil de modo que era necessário a consolidação da independência sob todos os aspectos, a necessidade de rezar para o Brasil cada vez mais independente, livre e cristão. Tudo foi encerrado com a eucaristia sob a proteção de Maria Mãe Santíssima, sendo o encontro realizado no final do mês de maio de 1972. O episcopado reunido tinha presente também a mensagem que Paulo VI tinha enviado ao povo brasileiro, em outubro do ano anterior, 1971, na interpretação das bodas de Caná disse que o Cristo aponta para a Amazônia. Se Cristo aponta para a Amazônia, os bispos, seus servidores, vigários humildes, o Cristo aponta também para eles. Invocando a Maria, a Padroeira e Rainha dos missionários da Amazônia, os bispos esperavam que a mão de Senhor Jesus Cristo apontasse para eles, de modo a fortalecer a missão evangelizadora na Amazônia, eles e todos os missionários e missionárias fossem dignos de pastorear o povo de Deus naquele momento histórico. O encontro terminou no dia 30 de maio de 1972 tendo em seguida o nome dos diversos bispos e sacerdotes das Arquidioceses, dioceses e prelazias.

            O encontro de Santarém em 1972 foi muito importante para estabelecer as linhas prioritárias que se seguiriam nos anos posteriores até o momento atual, onde se celebra os cinqüenta anos de vida, de evangelização nesta região da Amazônia. As linhas prioritárias da Pastoral da Amazônia colocaram a vivência do evangelho de Cristo pela realidade, a encarnação da mesma para atuar como Cristo fez ao vir neste mundo, a evangelização libertadora, a formação de agentes de pastoral, a criação de comunidades cristãs de base, a pastoral indígena, as estradas e a necessidade de ver outras frentes pioneiras, os serviços, os Institutos de Pastoral, os meios de comunicação social. As ações evangelizadoras de ontem não diferem daquelas do momento atual na Amazônia Legal, com outras ações que são necessárias para serem enfrentadas com alegria, com amor, nesta terra de missão que exige muitos missionários, missionárias, leigos e leigas, uma terra também mártires que deram e dão a vida pelo Senhor porque Cristo aponta para a Amazônia.

[1] Cfr. CNBB. Desafio Missionário. Documentos da Igreja na Amazônia, Coletânea. Brasília, Edições CNBB, 2014, pgs. 09-29.

[2] Cfr. Idem, pg. 14.

[3] Cfr. Idem, pg. 15.

[4] Cfr. Idem, pg. 16.

[5] Cfr. Idem, pg. 18.

[6] Cfr. Idem, pg. 20.

[7] Cfr. Idem, pg. 21.

[8] Cfr. Idem, pg. 24.

[9] Cfr. Idem, pg. 25.

[10] Cfr. Idem, pg. 26.

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