Marabá, 07 de maio de 2021

Nazaré e Cafarnaum de Jesus Cristo e em nossas vidas

30 de abril de 2021   .   

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA

            A qüinquagésima oitava Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) transcorreu de modo virtual, online. Ela foi uma expressão de cordialidade, de colegialidade episcopal, sempre em comunhão com o Papa Francisco, e de muita vida e amor à Cristo Jesus e à Igreja. Nós rezamos por todo o nosso povo, sobretudo pelos mais necessitados da sociedade. Essa foi a essência de nosso retiro espiritual. A pregação foi realizada pelo Cardeal Sean Patrick O´Malley, Arcebispo de Boston, EUA. A seguir, colocamos alguns pontos dessa espiritualidade.

            A Terra santa, o quinto evangelho.

            São Jerônimo, presbítero dos séculos IV e V, afirmou, segundo o pregador, que a terra santa era o quinto evangelho. Após ter convivido com o clero de Roma e com o Papa Dâmaso, São Jerônimo morou em Belém por muito tempo fazendo traduções da Sagrada Escritura do hebraico e do aramaico para o latim, originando a conhecida Vulgata. Ele escreveu uma obra sobre a terra santa, constituindo-se uma introdução aos lugares santos, por onde o Senhor Jesus passou. Isso é muito importante porque a vida de Jesus se desenrolou na Palestina, nas vilas, perto do mar da Galileia.

O Senhor se encarnou numa realidade, num povo de Deus, que era o povo de Israel na Palestina. Tal fato é fundamental para a compreensão dos evangelhos sinóticos, os quais relatam o nascimento de Jesus em um determinado povo, tendo presentes as autoridades romanas e judaicas. Quando lemos o evangelho, é importante sempre situar-se na realidade da época para assim podermos compreender melhor a palavra de Jesus e a realidade atual, a qual exige conversão de vida e o perdão de nossos pecados (cfr. Lc 24,47) por graça de Deus Uno e Trino. O evangelho é a boa nova do Reino de Deus que nos exorta sempre a uma mudança de vida para seguir Cristo caminho, verdade e vida (cfr. Jo 14,6).

            Belém, Jerusalém.

            O Pregador apresentou os dados escriturísticos onde Jesus nasceu, que foi em Belém, e onde ele morreu, que foi em Jerusalém. Ele devia nascer na cidade de Davi, como aponta o evangelho de Mateus, quando os reis magos estiveram em Jerusalém para saber do rei Herodes onde o Messias deveria nascer. Os sumos sacerdotes e os mestres da lei disseram que ele deveria nascer em Belém, na Judéia (cfr. Mt 2,5). Lucas também teve presente que o nascimento de Jesus ocorreu em Belém, cidade de Davi (cfr. Lc 2,4-6). E a sua vida final transcorreu em Jerusalém, cidade onde Ele entrou e foi aclamado como o bendito, o que vem em nome do Senhor, como celebramos no domingo de Ramos (cfr. Mc 11,1-10). Todos os evangelistas relatam a sua paixão, morte e ressurreição na cidade santa, Jerusalém.

Nazaré, Cafarnaum.

Dois outros lugares merecem atenção da parte de todos os seguidores do Senhor Jesus Cristo: Nazaré e Cafarnaum. Ele passou a maior de sua vida nestes dois locais. Se a sua vida pública como anunciador da boa nova do Reino de Deus ocorreu em Cafarnaum, na sua maior parte, por outro lado, Ele esteve muito presente em outro local: Nazaré. Lá, Ele cresceu junto aos seus pais adotivos. Estes dois lugares são muito importantes na vida de Jesus e em nossas vidas, de seguidores e seguidoras do Senhor. Jesus passou grande parte de sua vida em Nazaré, junto a José e a Maria. Em seguida, após trinta anos, ele passou três anos de sua vida pública no anúncio do evangelho. Essas duas realidades se entrelaçam porque uma não ocorre sem a outra. Nazaré foi importante para a vida humilde de Jesus, assim como o foi Cafarnaum na sua vida pública. Não é possível separar uma da outra.

São dois lugares teológicos.

Jesus passou grande parte de sua vida na humildade, em Nazaré, e pouco se tem de relatos sobre a sua vida na adolescência e na sua juventude. Isso nos faz refletir sobre a importância do recolhimento, de uma vida de oração com o Senhor, de estar à escuta pela Palavra de Deus e de vivê-la no cotidiano da existência. Esse recolhimento requer uma profunda interiorização do nosso ser, o que pode ser extremamente difícil, porque queremos aparecer nas diversas circunstâncias e atividades públicas. É preciso voltar-se a uma vida oração, de trabalho, de empenhos diários para progredir na fé, na esperança e na caridade.

Mas Jesus teve na sua vida, Cafarnaum, o local do anúncio do evangelho, da boa nova do Reino de Deus. Ele será conhecido na vida pública como o filho do Carpinteiro, filho de Maria (Cfr. Mc 6,3; Mt 13, 54), filho de José (cfr. Lc 4,22), e sofrerá a rejeição ao retornar para a terra onde havia se criado, Nazaré. Podemos dizer que Nazaré é fundamental para se ter Cafarnaum. Essa, por sua vez, se dará pela escolha de seus discípulos, pelo anúncio do Reino de Deus, pela cura aos doentes, sofredores da sociedade, expulsão de demônios, pela purificação de leprosos e ressurreição de mortos. As multidões acorriam a ele, porque era um mestre diferente, pois ensinava com autoridade, não como os escribas (cfr. Mc 1,22; Mt 7,29). Como não tivesse um lugar para repousar, Ele tinha como ponto de referência certamente a casa de Pedro, como local de acolhida e de formação para os seus discípulos.

Nazaré e Cafarnaum unidos.

Percebemos que Jesus viveu Nazaré e Cafarnaum juntos, na sua vida pública. Era preciso o recolhimento, o diálogo com o Pai para o prosseguimento de sua missão. Podemos fazer tal afirmação através da interpretação de duas passagens. Primeiro, Jesus passou na casa de Pedro, onde curou a sogra dele, que estava com febre. Na parte da tarde, no por do sol, levaram a Jesus muitos doentes e os possuídos pelo demônio. Jesus curou muitas pessoas, segundo o evangelista Marcos, e também expulsou muitos demônios. Mas, de madrugada, quando estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. Simão Pedro e seus companheiros foram à procura de Jesus e lhe disseram que todos estavam O procurando. Mas, Ele disse que deveria ir para outros lugares, pois foi para isso que Ele veio ao mundo (cfr. Mc 1,38).

A segunda passagem é percebida no evangelho de João. Jesus foi para o outro lado do mar, chamado de Tiberíades. Lá, Ele multiplicou os pães para uma multidão que o seguia, a partir de cinco pães e dois peixes que um menino estava carregando. Toda a multidão ficou satisfeita e aquelas pessoas exclamaram que Jesus era o verdadeiro Profeta, aquele que devia vir ao mundo. Mas, quando percebeu que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte (Cfr. Jo 6,1-15). Vemos nestas duas passagens a vida pública do Mestre e também a necessidade de se recolher, de viver na humildade, de unidade com o Pai para prosseguir na missão.

Desta forma, Jesus viveu intensamente nesses dois locais, nos quais deu a sua vida para a salvação da humanidade. Um não tem sentido sem o outro, de modo que Nazaré estava relacionada com a sua vida pública, assim como Cafarnaum, lugar de aprendizado dos discípulos e do anúncio do Reino de Deus, deve ser compreendido a partir de Nazaré.

As nossas vidas de seguidores de Jesus em Nazaré e em Cafarnaum.

Somos seguidores de Jesus Cristo, que passou por Nazaré e esteve em Cafarnaum. A Pandemia fez com que cada um de nós passasse e ainda passe uma boa parte de nossas vidas mais em Nazaré do que em Cafarnaum, pois ainda é necessário recolher-se e evitar as aglomerações, pois o vírus do covid 19 se espalha rapidamente. Ele já ceifou mais de três milhões de vidas em todo o mundo e são milhões os infectados e também os recuperados. Estamos unidos com os milhares de sofredores no Brasil e no mundo afora.

A nossa vida deve ser Nazaré e Cafarnaum. Jesus passou sua vida em Nazaré, onde ficou junto de seus pais adotivos. Esteve unido a eles no trabalho e na oração. E depois, foi para a vida pública, pelo anúncio do Reino de Deus e pelas curas que realizava junto ao povo simples e pobre. Era acolhido pelos pecadores, publicanos, prostitutas, pessoas simples da sociedade, e rejeitado pelos fariseus, doutores da lei. Assim também devemos fazer, no sentido de ficar em Nazaré, por uma vida de simplicidade e mantendo nosso encontro com o Senhor, sem deixar é claro de marcar presença junto ao povo simples e pobre. Pelo batismo, e outros sacramentos da iniciação cristã, a nossa missão é pública para sermos sacerdotes bons, profetas e pastores do povo de Deus.

A nossa presença como Igreja.

O Concilio Vaticano II apresenta a importância da Igreja junto às realidades que tocam a vida dos seguidores do Senhor: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para comunicá-la a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história” (LG 1).

Somos chamados a viver em comunhão com as pessoas. Nazaré é importante e também Cafarnaum na vida de todo o seguidor e seguidora do Senhor. Às vezes, a presença pública da Igreja incomoda, é criticada, perseguida, mas é importante para dar a sua palavra profética, e levar a palavra de Deus às pessoas e às comunidades. É preciso denunciar o mal e anunciar o bem, o amor. A Igreja continua a obra da encarnação do Verbo e a sua ressurreição, fazendo-se presença junto ao povo de Deus para assim levá-lo até Deus e trazer a presença de Deus, pelos sacramentos e pela vida junto ao povo de Deus.

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