Marabá, 29 de fevereiro de 2024

O advento aponta à alegria do Senhor

10 de dezembro de 2021   .   

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA

Nós estamos no tempo do advento, terceiro domingo dado na alegria e domingo da coleta para a evangelização no Brasil, de modo que nós esperamos a chegada do Mestre Jesus em nossas vidas e em nossa realidade. Quanto mais nós nos aproximamos do acontecimento natalino tanto mais a alegria invade o coração, para que ele nos encontre cheios de ações boas em vista do Reino. A alegria é uma palavra latina: gaudia, gaudium, que é a intensa e agradável emoção que se sente quando um fim é alcançado ou um desejo encontra a realização; é ser feliz, alegre[1]. O Natal traz a maior alegria à humanidade, porque Jesus Cristo, o Filho de Deus tornou-se carne, e vem habitar entre nós (cfr. Jo 1,14). Vejamos como a alegria foi percebida entre os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos.

            A alegria deve ser constante.

            São Basílio de Cesareia, o grande, bispo do século IV afirmou em relação ao seu povo que a alegria deveria ser constante na vida de todas as pessoas. Interpretando São Paulo aos Tessalonicenses que é bom ser sempre alegres, o fiel não cessa de rezar, em toda a ocasião dando graças a Deus (1 Ts 5,16). O bispo de Cesareia perguntava como seria possível viver esta alegria em meio a tantas dores? Não se trata de uma alegria exterior, mas de uma alegria interior, que vem de Deus para a nossa vida e salvação. É de tudo isso que resulta a alegria da vida e da alma. A alegria deve ser dada também quando vêm as perseguições por causa de Cristo Jesus.

            Tendo presente o apostolo São Paulo, São Basílio disse que a alegria é dada pela pessoa que vive o Cristo em sua vida, passando por situações de pobreza, de fome, de martírios. A vida evangélica impõe uma vida de cruzes que trarão alegrias no Senhor[2].

            O caminho à alegria: o coração.

            São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla, séculos IV e V, dizia que a alegria não segue a riqueza, nem a saúde do corpo, nem a glória, nem o poder nem mesmo a pessoa estar cheia de roupas finas, mas a alegria segundo Deus, adquire a virtude, porque o que vem de Deus alegra a vida humana. O caminho da alegria é o coração. A pessoa conseguirá a bem-aventurança na graça de Deus, acompanhado pela responsabilidade humana[3].

            A alegria que não pode ser tirada (cfr. Jo 16,22).

            São João Crisóstomo ainda dizia a alegria nossa ninguém a pode tirá-la, porque ela vem do alto, de Deus. Ela não provem de situação de alguma pessoa ser prejudicada, mas é dada pelo amor a Deus, ao próximo como a si mesmo. As alegrias deste mundo passam, enquanto as do alto permanecem para sempre. A piedade, as virtudes interiores operam pela permanência. Se a pessoa dá de esmola ou mesmo quando ela fizer o bem, terá a alegria que dura para sempre como a palavra de Deus coloca que a sua ajuda feita aos pobres permanece nos séculos (Cfr. Sl 111,9)[4].

            Alegria incessante.

            São João Crisóstomo ainda disse que quem está bem disposto e procura o alimento interior, goza de uma alegria incessante. O Apóstolo São Paulo afirmou que é preciso alegrar-se sempre no Senhor (cfr. Fl 4,4). Muitas vezes caem as tristezas nas pessoas, porque nestas ocorreram perdas como a de uma pessoa, amiga, um filho, o esposo, a esposa, ocorreu alguma perseguição, a fome ou alguma preocupação em família. Os meios para gozar algum benefício são muitos, pois muitos amam a alegria, mas nem todos a conseguem adquiri-la enquanto não conhecem a estrada que a conduzem para a verdadeira alegria, dada no Senhor, pelas coisas que vem do alto, não pelas riquezas, ou por atitudes de egoísmo. O temor de Deus transborda em tanta alegria, de tornar impossível a percepção de outras coisas. Quem teme a Deus alcançou a raiz da felicidade e bebe a fonte de toda a alegria. O fato é que mesmo que a pessoa tenha que enfrentar o sofrimento, ela vive a alegria em Cristo Jesus[5].

            Inebriar-se nas alegrias de Deus.

            Santo Agostinho, bispo dos séculos IV e V afirmou a necessidade da pessoa inebriar-se nas alegrias do Senhor. O apóstolo Paulo tem presente o fiel que deve enfrentar a vida, como um enigma, com cruzes e esperanças, mas um dia, a pessoa verá face a face (cfr. 1 Cor 13,12). Enquanto a pessoa está no mundo, as coisas vão passando e quando terá a graça da vida eterna, verá como Deus é realizando-se a palavra de Deus que diz a sua taça inebriante quanto é excelente (Sl 22,5). A pessoa viverá para sempre a felicidade[6].

            A alegria pelo Natal toma conta de nossos corações porque é a vida do Senhor na realidade humana, mas ela é também na vida de cada um de nós, como discípulos e missionários em saída. O nascimento do Messias é vida, é paz, é amor. A alegria do Natal que o Senhor nos traz, tome conta de nossas vidas para a construção da paz e do amor no mundo de hoje.

[1] Cfr. Gioia. In: Il vocabolario treccani, Il Conciso. Milano, Trento, 1998, pg. 667.

[2] Cfr. Basilio, Il Grande. Omelia sul ringraziamento, 1-3. In: La teologia dei padri, v. 3. Città Nuova Editrice, Roma, 1982, pgs. 184-185.

[3] Cfr. Giovanni Crisostomo. Omelie sulle statue, 18,4. In: Idem, pg. 187.

[4] Cfr. Giovanni Crisostomo. Omelie sulle statue, 16,6. In: Idem, pgs. 187-188.

[5] Cfr. Giovanni Crisostomo. Omelie sulle statue, 18,1-2. In: Idem, pgs 182-183.

[6] Cfr. Agostino. Esposizioni sui Salmi, 35,14. In: Idem, pgs. 186-i87.

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