Marabá, 22 de fevereiro de 2024

O sentido de Maria concebida sem o pecado nos santos padres da Igreja.

14 de dezembro de 2022   .   

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

            Introdução

            No dia 08 de dezembro celebrou a Igreja, uma festa cristã muito importante: a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Desde os primórdios do cristianismo, a comunidade eclesial teve fé em Maria imaculada, porque ela recebeu a graça de Deus, vivendo sem o pecado original para conceber na carne o Filho de Deus sem o pecado. Ela é a Imaculada, a mulher sem a mancha do pecado; conceição, concebida na realidade humana, mas sem o pecado que passa dos pais para os filhos, as filhas e o batismo dá a graça de sua superação, de uma vida nova. A palavra Imaculada vem de Immaculatus, cujo significado é sem mancha, cândida, imune do pecado original, no caso de Maria[1]. Os Padres da Igreja desenvolveram uma doutrina a respeito da Mãe do Filho de Deus, sem o pecado.

            O Verbo de Deus na carne humana.

            Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir no século I afirmou que Jesus é o verdadeiro médico, carnal e espiritual, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, vida passível na realidade humana e impassível na realidade divina, Jesus Cristo nosso Senhor[2]. O bispo tinha presente o plano de salvação assumido por Jesus à humanidade, sendo ele levado no seio de Maria, da descendência de Davi e do Espírito Santo[3]. Santo Inácio enfrentou os gnósticos que negavam a realidade humana de Jesus de modo que ele é verdadeiramente da descendência de Davi, segundo a carne e Filho de Deus segundo a vontade e o poder de Deus, nascido verdadeiramente da virgem, batizado por João, para que toda a justiça fosse cumprida por ele[4].

            A morte e a vida.

            São Justino de Roma, padre da Igreja, século II disse que na relação entre Eva e Maria houve a morte e a vida. Quando era ainda virgem e incorrupta, Eva tendo concebido a palavra que a serpente lhe disse, deu à luz à desobediência e à morte. No entanto, a virgem Maria, concebeu fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe deu a boa noticia de que o Espírito do Senhor viria sobre ela e a força do Altíssimo a cobriria com a sua sombra, e o menino que nasceria dela, seria santo, o Filho de Deus, de modo que ela disse sim à palavra do Senhor, e que tudo se fizesse nela segundo a vontade do Senhor (Lc 1, 35-38).

            As duas mulheres.

            Tertuliano, padre da Igreja dos séculos II e III também colocou a diferença de concepções de Eva e de Maria, pelo fato de que tudo era em vista da salvação que se realizaria em Jesus. Se Eva era ainda virgem, introduziu na humanidade a palavra edificadora de morte, de modo que o Verbo de Deus, deveria por sua vez entrar numa virgem, para reconstruir na humanidade dada à morte, pela vida. Aquilo que através da mulher caiu na perdição, voltaria à salvação através do mesmo sexo. Enquanto Eva acreditou na serpente, Maria acreditou no anjo Gabriel. Se o pecado que Eva cometeu com a sua fé, Maria o reparou com a sua própria fé em Deus[5].

            A obediência que leva à graça em Maria.

            Santo Ireneu, bispo de Lião, séculos II e III afirmou que a obediência de Maria levou à graça da salvação, pela vinda do Salvador da humanidade. Se Eva desobedeceu levando ao pecado, tornando-se para si e para todo o gênero humano causa de morte, assim Maria, pela sua obediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa de salvação[6]. Desta forma, o nó da desobediência de Eva, segundo Santo Ireneu foi desatado pela obediência de Maria e o que Eva, a primeira mulher amarrou pela sua incredulidade, Maria, a segunda mulher, livre do pecado, soltou pela sua fé[7].

            Maria, advogada de Eva.

            Santo Ireneu colocou que Maria tornou-se a advogada de Eva, no sentido de que ela obedeceu à palavra do Senhor, tornando-se a mãe do Salvador. Assim como Eva foi seduzida pela fala de um anjo e na qual ela afastou-se de Deus, fazendo a transgressão da sua Palavra, Maria recebeu a boa-nova pela boca de um anjo e trouxe Deus em seu seio virginal, obedecendo à sua palavra. Se uma deixou-se seduzir de modo que entrou na realidade humana a desobediência a Deus, a outra se deixou persuadir a obedecer a Deus, para que, da virgem Eva, a Virgem Maria se tornasse a sua advogada[8].

            A relação entre Eva e Maria.

            Santo Ireneu colocou a relação entre Eva e Maria que se pela desobediência de uma virgem o ser humano foi ferido, caiu e morreu, assim também por causa de uma virgem obediente à Palavra de Deus, o ser humano ressuscitou e recobrou a vida por Jesus. Na verdade, Jesus veio buscar a ovelha perdida, ou seja, o ser humano que se perdeu (Mt 15,24), de modo que ele assumiu um corpo não diverso de Adão, igual ao ser humano em tudo menos o pecado, de modo que Adão foi recapitulado por Cristo, a fim de que o mortal fosse submetido na imortalidade e Eva em Maria para que por meio de uma virgem, dissolvesse e destruísse com a sua obediência de virgem a desobediência de uma virgem. O pecado cometido por causa da arvore foi anulado pela obediência a Deus, na qual o Filho do Homem foi pregado na árvore, proporcionando a obediência, o bem, a paz e o amor aos seres humanos[9]

            Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher (Gl 4,4).

            O bispo de Lião, seguindo a palavra de São Paulo, disse que Deus enviou o seu Filho, Jesus Cristo que nasceu de uma mulher, para recapitular todo o ser humano através do Senhor Jesus. O inimigo não teria sido vencido com justiça se não tivesse nascido de mulher o homem que o venceu, Jesus, na qual dominou o ser humano, opondo-se a ele desde o principio. Assim o próprio Senhor declarou ser o Filho do Homem, recapitulando em si aquele primeiro ser humano, homem e mulher, para desta forma dar-lhes a vida verdadeira, a eterna[10].

A fé no Filho de Deus que nasceu de Maria.

Santo Agostinho, bispo de Hipona, afirmou que a fé cristã leva a pessoa a crer no Filho de Deus que na realidade humana, nasceu pelo Espírito Santo, da Virgem Maria. O dom de Deus, isto é o Espírito Santo possibilitou a grandeza da humildade por parte de Deus tão magnífico, tão poderoso a ponto de se dignar tomar a natureza toda inteira no seio de uma virgem, vindo habitar entre as pessoas, pelo seio materno, deixando-o intacto. Da mesma forma como no sepulcro onde o corpo do Senhor fora depositado, para ele ressuscitar para a vida nova dada por Deus, assim também no seio virginal de Maria, nem antes nem depois, ser mortal algum foi concebido, a não ser Jesus, o Cristo[11].

            Jesus assumiu a vida humana.

            A alegria humana é grande porque o Senhor desceu até a vida humana. Ele tomou sobre si a morte de todas as pessoas, exterminando-a com a superabundância de sua própria vida. Ele entrou no seio da Virgem Maria, onde se uniu à natureza humana, à carne mortal, a fim de torná-la imortal. Através de sua vida, paixão, morte e ressurreição elevou ele a natureza humana até o alto[12]. Maria colaborou com o mistério da encarnação do Filho de Deus, na superação do pecado e da morte.

            A fé em Jesus e em sua mãe.

            Santo Agostinho também disse que a fé cristã colocou que Jesus nasceu da Virgem Maria, porque assim está escrito no evangelho, a palavra de Deus. Ele passou pela cruz, morte e ressuscitou dos mortos pelo poder de Deus, porque tudo isso está escrito no evangelho. A fé nos evangelhos está acima de tudo, porque é palavra de Deus de modo que o ser humano louva Deus[13].

            Jesus concebido na carne humana.

            O bispo de Hipona afirmou também a pureza dada pelo seio da Virgem Maria, o qual ainda que o corpo do Senhor se originou na carne de pecado, todavia ela não concebeu por influxo do pecado. Assim o corpo de Cristo, no seio de Maria, não esteve submetido ao pecado, à lei nas quais o corpo humano leva ao pecado, fator fundamental que não se realizou em Jesus, pela sua mãe livre do pecado e o seu Filho, da mesma forma. A carne de Jesus Cristo, nascida de Maria, não foi concebida em pecado, mas totalmente livre, pura do pecado original, para resgatar a toda a humanidade no pecado e na morte[14].

            O ser de Maria: Imaculada Conceição.

            Santo Agostinho também disse que a Virgem Maria precedeu a Igreja como sua figura, afirmando que Jesus nasceu de uma Virgem chamada Maria, que viveu esta realidade não só na concepção, mas no parto e até a morte iluminando a vida da Igreja. Desta forma Jesus acabou com toda a vaidade da nobreza carnal. Ele tornou-se pobre (2 Cor 8,9) aquele a quem tudo pertence e por meio do qual tudo foi criado (Cl 1,16) para que assim toda a pessoa que nele crer não ousasse de se orgulhar de suas riquezas terrenas[15], mas partilhasse com os outros.

            Maria foi concebida sem o pecado original por graça de Deus. A Igreja deve seguir os passos de Maria porque ainda que neste mundo haja a deficiência, a limitação, a maldade, o pecado, a graça de Deus triunfará sobre o pecado e a morte, em Jesus Cristo. Em Cristo Jesus são chamadas as pessoas a lutar pelo bem, pelo amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. Um dia viverá a pessoa livre do pecado de modo que também nós seremos por graça do Senhor, imaculados, assim como foi Maria, pelos méritos de Cristo, para viver para sempre, a graça de Deus da imortalidade.

[1] Cfr. Immacolato. In: Il vocabolario treccani, Il Conciso. Milano, Trento, 1998, pg. 721.

[2] Cfr. Inácio de Antioquia aos Efésios, 7,2. São Paulo, Paulus, 1995, pg. 84.

[3] Cfr. Idem, 18, 2, pg. 88.

[4] Cfr. Idem, aos Esmirniotas, 1,1, pg. 115.

[5] Cfr. Tertulliano. La Carne di Cristo, XVII, 5. Introduzione, traduzione e Note di Claudio Moreschini. Milano, 1996, pgs. 429-431.

[6] Cfr. Ireneu de Lião, III, 22,4. São Paulo, Paulus, 1995, pgs. 351-352.

[7] Cfr. Idem, pg. 352.

[8] Cfr. Idem, V, 19, 1, pg. 569.

[9] Cfr. Irineu de Lyon. Demonstração da pregação apostólica, 33. São Paulo, Paulus, 2014, pg. 95.

[10] Cfr. Idem, V, 21,1, pg. 573.

[11] Cfr. De Fide et symbolo V,11. In: Santo Agostinho. A Virgem Maria. Cem textos marianos com comentários. São Paulo, Paulus, 1996, pgs. 28-29.

[12] Cfr. Confissões, IV, 12,19. Santo Agostinho. São Paulo, Paulus, 1997, pg. 104.

[13] Cfr. Contra Faustum, 26,7. In: Santo Agostinho. A Virgem Maria, pgs. 37-38.

[14] Cfr. De Genesi ad Literram, 18,32. In: Idem, pg. 43.

[15] Cfr. Santo Agostinho. Primeira Catequese aos não cristãos, XXII, 40. São Paulo, Paulus, 2013, pg. 127.

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