Marabá, 19 de junho de 2024

O valor do amor fraterno em Santo Agostinho de Hipona.

29 de agosto de 2023   .   

Foto: Vatican News

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

            Santo Agostinho foi um grande pastor e bispo em Hipona, no qual dirigiu a Igreja, a diocese, por mais de trinta anos, final do século IV e início do século V. Para todas as pessoas tinha uma palavra de fé, de esperança e de caridade. É muito importante perceber como ele levava em consideração o amor fraterno, o ponto fundamental que caracteriza a vida cristã, junto de Deus e junto à humanidade.

            A homilia no Salmo 132.

            Santo Agostinho teve uma homilia muito expressiva feita para o povo de Deus na interpretação do Salmo 132 a qual fala da alegria do amor fraterno. As considerações são importantes na realidade atual, familiar, eclesial e social para que se viva o amor a Deus, ao próximo como a si mesmo, assim como nos solicita o Senhor Jesus Cristo para os seus discípulos e discípulas.

            O salmo é bem simples, curto no qual fala da beleza, da situação de como é agradável a irmãos unidos viverem em comum no amor de verdade. É palavra suave a caridade que leva irmãos a conviverem juntos pelo mesmo objetivo, convivência. O Bispo fez uma análise para ver se o salmo referia-se a todos os cristãos em geral, ou se houvesse algumas pessoas perfeitas que habitavam unidas para a vivência da palavra de Deus[1].

            Tendo presente esta indagação, Santo Agostinho afirmou que aquela palavra do saltério, em relação à agradabilidade, quer cantada, quer ouvida, deu origem aos mosteiros[2]. Tal som ressoou em toda a terra e reuniu as pessoas que estavam dispersas, sendo este um clamor divino, profético, do Espírito Santo,[3]. É claro que primeiro foi dada essa benção, para os que seguiam a Jesus Cristo.

Perguntas levantadas.

O bispo de Hipona levantou perguntas no sentido da proveniência dos quinhentos discípulos que viram o Senhor ressuscitado, conforme relembrou o Apóstolo Paulo, de onde veio tanta gente? Depois os cento e vinte, reunidos no mesmo recinto após a ressurreição e ascensão do Senhor ao céu e no dia de Pentecostes, desceu o Espírito Santo, segundo a realização da promessa? (cf. At 1,15). O resultado dessas ações divinas foi que as pessoas começaram a viver em comum. Muitas coisas eram vendidas e era depositado o preço aos pés dos apóstolos e a multidão era um só coração e uma só alma (cf. At 4,32). Sem duvida aquelas pessoas foram as primeiras que ouviram a palavra: “Eis como é bom, como é agradável a irmãos unidos viverem em comum” [4].

            Pessoas posteriores, os discípulos e as discípulas do Senhor.

Se para Santo Agostinho as palavras da amabilidade dos irmãos e das irmãs viverem juntos eram dirigidas para os primeiros cristãos, no entanto eles não foram os únicos, porque a caridade e a união fraterna não se limitaram somente a eles, mas a alegria da caridade e o voto feito a Deus abrangeram também muitas pessoas posteriores[5]. Derivava deste salmo o nome de monges, no seu verdadeiro sentido, de seguidor do Senhor, pessoa consagrada a Deus, ao próximo como a si mesmo. Não se tratavam dos circunceliões, pessoas que andavam errantes pelas celas, pelos mosteiros, pois esses, não sendo domiciliados, cometiam o mal, pela violência de atitudes, muitas vezes por onde passavam. Estes eram também chamados de falsos monges pela comunidade eclesial. Era claro que no cenário geral, familiar, comunitário e social existiam, segundo o Bispo de Hipona, falsos monges, falsos clérigos e falsos fieis[6].

            Santo Agostinho lutou contra os circunceliões, também chamados de lutadores, combatentes, conforme declarou o Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate” ( 2 Tm 4,7). Agostinho afirmou que oxalá eles mesmos fossem soldados de Cristo e não do diabo, os quais a saudação que se davam entre eles que era ‘Louvor de Deus’, incutindo maior medo do que o provocado pelo rugido do leão. Enquanto a saudação dos monges era ‘Graças a Deus’ louvor a Deus, porque um irmão via no outro, uma irmã, um irmão[7] de modo que isto era motivo de dar graças a Deus, o encontro dos que viviam com Cristo[8]. Assim eram chamados os monges, aqueles que viviam unidos de tal sorte que formaram um só ser humano, do qual foi escrito que eram uma só alma e um só coração (At 4,32), pois sendo muitos corpos, não eram muitas almas, pela unidade em Cristo formada. Já os circunceliões, espécie de monges dos donatistas, não viviam unidos aos irmãos, mas seguiam a Donato, pois para o bispo de Hipona eles abandonaram o amor a Cristo e aos irmãos[9].

            Santo Agostinho convidou o povo de Deus a cumprir a lei de Cristo que consistia os irmãos viverem em comum, no amor. Tudo isso era dom de Deus, era graça, qual orvalho que caia do céu. A terra não produz a chuva por si mesma, porque tudo seca se do alto não descer a chuva. Cristo é, pois a luz exaltada na cruz, pois na humilhação ocorreu a elevação. Se as pessoas quiserem viver em comum, desejam o orvalho, a chuva que vem do alto[10]. Deste modo é preciso viver em comum, porém com a caridade perfeita de Cristo, porque senão a vivência fraterna não tem verdadeiro sentido, podendo viver só a palavra de uma forma corporal[11], mas isso seria pouco. O Senhor derramou as suas graças sobre as irmãs e os irmãos que vivem em comum, na concórdia, na caridade[12].

[1] Santo Agostinho, Comentário aos salmos, 9/3. São Paulo, Paulo, 1998, pg. 764.

[2] Idem, pg. 764.

[3] Idem, pg. 764.

[4] Idem, pg. 765.

[5] Idem, pg. 765.

[6] Idem, pg. 766.

[7] Idem, pg. 769-770.

[8] Idem, pg. 770.

[9] Idem, pg. 771.

[10] Idem, pg. 775.

[11] Idem, pgs. 775-775.

[12] Idem, pg. 776.

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