Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.
A Quaresma é um tempo de conversão e de preparação à Páscoa do Senhor. No Brasil nós temos um tema muito importante, que diz respeito à nossa relação social da fé e da caridade, e está sendo aprofundado, estudado nos grupos, nas assembléias, que é o da Campanha da Fraternidade sobre Moradia e Fraternidade. O seu lema é: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Jesus se encarnou na realidade humana e assumiu tudo o que é humano, para dar a todas as pessoas a redenção, a salvação. A Igreja antiga colocou a importância da Quaresma, como período de quarenta dias sendo um período de ascese à Páscoa[1], de conversão, de vida nova para o Senhor Ressuscitado dentre os mortos, como primícias de nossa vida futura. A Igreja antiga convocava a todas as pessoas às práticas caritativas.
Como é que foi a quaresma?
Segundo Eusébio de Cesareia e também Santo Atanásio, a Quaresma era um período de seis semanas incluída também a própria semana santa, um período de ascese que dizia respeito ao jejum, orações, práticas de caridade e acolhida de pessoas estrangeiras[2]. Aqui entra a importância da Campanha da Fraternidade deste ano que diz também respeito às pessoas que vinham de outras localidades, países para serem acolhidas e a palavra de Jesus que diz: “Eu era estrangeiro e vós me acolhestes” (Mt 25,35).
A sua observância
Segundo alguns estudiosos da Igreja antiga a Quaresma estava sendo observada, assumida a partir da Epifania do Senhor. Ela estava em profunda imitação de Jesus Cristo, que apenas batizado, foi no deserto, para preparar-se para a missão evangelizadora, como Enviado do Pai para a humanidade(cfr. Mt 4, 1-11). A Quaresma era concluída com o batismo e outros sacramentos da Iniciação à Vida Cristã, conferidos aos catecúmenos e às catecúmenas em unidade em a Páscoa do Senhor[3]. Para outras pessoas a Quaresma foi um período de jejum surgido nos séculos III e IV e oficializada em Nicéia, no ano de 325, por sua natureza ligada à festa móvel da Páscoa[4].
O número quarenta.
Santo Agostinho convidava o povo de Deus a viver bem os quarenta dias antes da Páscoa com atitudes de humildade, de amor ao próximo, para viver em comunhão com a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus. O mistério que se celebrava no número quarenta foi porque o próprio Senhor jejuou durante este tempo após o seu batismo. Em comunhão com os catecúmenos, sendo as pessoas que iriam ser batizadas, o Bispo de Hipona convidava as pessoas cristãs também a jejuar e praticar obras de caridade neste período tão importante da vida cristã[5].
O tempo da Quaresma.
Santo Agostinho também afirmava ao seu povo a necessidade de oferecer a Deus obras que estivessem de acordo com o período especial da Quaresma. Ele tinha presentes a oração, o jejum, a esmola, conforme o Senhor recomendou no evangelho de Mateus, para que tudo se realizasse na maior descrição, e o Pai do céu que vê o que é secreto, dará a recompensa para os seus filhos e filhas (cfr. Mt ). A cada ano havia uma repetição da solenidade da Quaresma na qual Cristo Senhor sofreu por nós na sua única morte. Há uma perpétua memória de sua Paixão, Morte e Ressurreição[6].
Ele veio morar entre nós (Jo 1,14).
É o lema que nós refletimos neste período da Quaresma proposto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da qual nós estamos unidos e fazemos parte da Igreja do Senhor. Jesus se encarnou na realidade humana, assumindo tudo o que é próprio do ser humano, menos o pecado. Ele nos redimiu dos pecados, venceu a morte e está vivo para nós lutarmos por moradia digna, com políticas públicas que ajudem a todas as pessoas terem uma casa, um local onde possam viver bem e atuar em favor do Senhor, de seu Reino.
Se a Igreja antiga com os seus pastores exortavam na Quaresma obras de jejum, de oração e de caridade conforme a Palavra do Senhor, hoje a Igreja exorta à práticas de vida, em unidade com as pessoas sofredoras, para que tenham terra, teto, trabalho. Nós somos chamados a viver bem o período da Quaresma em profunda unidade com o Senhor e com todas as pessoas que necessitam de moradia digna, aqui e agora, e um dia na eternidade.
[1] Cfr. A. Camplani, Quaresima. In: Nuvo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Genova-Milano, Marietti, 2008, pg. 4428.
[2] Cfr. Idem, pg. 4430.
[3] Cfr. Ibidem.
[4] Cfr. Ibidem, pg. 4431.
[5] Cfr. Sermão 210 de Santo Agostinho de Hipona. In: Antogologia Litúrgica. Coimbra – Fátima: 2003, pg. 895.
[6] Cfr. Sermão 206, Idem, pg. 892.