As palavras de Jesus após a Ceia na interpretação de Santo Agostinho
Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.
Jesus falou diversos discursos aos seus discípulos, após a Ceia, já num contexto de despedida, antes de ir para o Jardim do Getsêmani para a sua agonia, a sua prisão, seu julgamento, morte e ressurreição. Santo Agostinho teve presentes estes dados que servem para a nossa vida de seguidores e de seguidoras para perceber o amor de Deus em Jesus para conosco e com a humanidade. Nós vejamos a seguir alguns pontos importantes.
A divindade de Jesus.
O Senhor Jesus garantiu que não era para eles se perturbarem, mas para que eles acreditassem em Deus e acreditassem também nele (cfr. Jo 14,1). Esta forma de dizer as coisas revelou a divindade do Senhor, porque se eles acreditarem em Deus, deveriam acreditar também em Jesus, o Verbo de Deus encarnado, o seu ser igual a Deus. porque Ele se esvaziou a si mesmo, sem contudo perder a forma de Deus e assumiu a forma de escravo (cfr. Fl 2,6-7). Se a forma de escravo recairá a morte, não era para eles se perturbarem porque a forma de Deus a fará ressuscitar.
A casa do Pai é com muitas moradas.
Jesus garantiu aos seus discípulos que na casa do Pai há muitas moradas(cfr. Jo 14,2), de modo que eles não deveriam ter os seus corações perturbados, porque Ele estaria sempre com o seu povo. É evidente que eles estavam temerosos porque Jesus tinha dito a Pedro que o galo não cantaria sem que antes ele não tivesse renegado três vezes a Jesus (cfr. Jo 13,38). Por isso Jesus deu-lhes umas garantias de que na casa do Pai há muitas moradas, porque Ele iria preparar um lugar para eles, certos de que após as perturbações, desafios, esperanças, práticas de amor e a vida em si, haveriam de permanecer junto a Deus e na companhia de Jesus. Cada um há de receber a morada conforme o seu merecimento, vivendo para sempre junto de Deus, na eternidade.
A caridade em Deus.
Na vida eterna todos estarão unidos em Deus, porque Ele será tudo em todos (cfr. 1Cor 15,28) de modo que por ser Deus a caridade, por meio da caridade aconteça que o que cada um possui seja comum a todas as pessoas. Assim cada um tem ao amar no outro o que ele não tem. Não haverá inveja alguma resultante dessa glória não desigual, porque em todos reinará a unidade da caridade em Deus.
A pergunta de Tomé.
Tomé levantou a pergunta a Jesus que eles não saberiam para onde Ele iria de modo que não conheciam o caminho?! (Cfr. Jo 14,3-5). Jesus garantiu-lhe que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Cfr. Jo 14,6ª ). O Bispo de Hipona aprofundou as afirmações ditas pelo Senhor. Em primeiro lugar um caminho é o meio pelo qual uma pessoa avança, a realidade pela qual alguma pessoa se dirige. O Caminho que é Jesus é o seguimento que todos nós vamos a Ele e por meio de sua intercessão, a d`Ele, vamos ao Pai. “Por isso Jesus disse que Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14,6b). Assim Ele mesmo vai ao Pai, porque é Filho de Deus, como nós por meio d`Ele vamos a Ele e ao Pai. Jesus é a Verdade que liberta (cfr. Jo 8,32) das escravidões e do pecado para vivermos na graça do Senhor. Jesus é a Vida eterna, que é Ele é, n`Ele mesmo está a vida verdadeira. Por isso Jesus disse que como o Pai tem a vida em si mesmo, sendo a vida que tem, senão o que é Ele mesmo que a tem, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo (cfr. Jo 5,26).
A relação nossa com a Vida verdadeira.
Para Santo Agostinho Deus em Jesus tem a vida verdadeira. Ele é o que tem, e por que a Vida está n´Ele, Ele está em si mesmo com a vida. Nós como criaturas, não somos a própria vida, mas somos partícipes da vida n´Ele , nós possamos ter a Ele que é a Vida, que tem a vida em si mesmo ao ser Ele próprio a Vida. Jesus está inseparável do Pai e nós pela graça de Deus, ao ter presente a palavra de Jesus que diz: “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14,6b) e ao permanecermos n`Ele, ninguém nos poderá separar do Pai, nem d`Ele.
Ver o Filho é ver o Pai.
Jesus disse que os discípulos conheciam o Pai e o vistes em Jesus (cfr. Jo 14,7b). Mas Filipe pediu a Jesus de mostrar o Pai e isso era fundamental, bastava (cfr. Jo 14,8). Jesus disse para ele que quem O vê, vê o Pai (cfr. Jo 14,9a). Jesus disse estas palavras pela realidade que Ele era, a imagem do Pai, a sua ilimitada semelhança que Ele tem com o Pai, por isso se dizia que conhecerem eles o Pai, isto é, porque conheciam o Filho que Lhe é semelhante. Por isso a afirmação de Jesus de quem os discípulos conheciam o Pai e o tinham visto seria que eles viram o Filho semelhante ao Pai, e que ao Pai a quem ainda eles não viam, era tal qual o Filho, a quem viam.
A superação da doutrina sabeliana.
Santo Agostinho tinha presente que era preciso superar a doutrina sabeliana que afirmava que o Pai e o Filho eram o mesmo, a mesma Pessoa. Esta era uma heresia, uma doutrina não condizente à verdade trinitária. A Palavra de Jesus era diferente de modo que o Pai e o Filho são tão semelhantes que quem tiver conhecido a um dos dois a ambos conhecerá, completando-se a palavra de Jesus: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9a). não por ser o próprio Pai o mesmo que o Filho, mas porque o Filho em nada difere da semelhança do Pai. Desta forma Jesus disse a Filipe, convidando-a crer que Jesus está no Pai e o Pai está n´Ele?! (cfr. Jo 14,10a). Santo Agostinho ressaltou nesta afirmação que é impossível conhecer em separado os inseparáveis. Assim Jesus não falou somente esta Verdade, da unidade do Filho com o Pai e do Pai com o Filho seja para os seus discípulos, seja para todas as pessoas que vieram depois dos apóstolos, portanto a todos nós. “Quem me viu, viu o Pai”(Jo 14, 9a). Nós somos convidados a viver a Palavra de Jesus e de sua Igreja na fé, na esperança e na caridade.
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