Marabá, 31 de agosto de 2025

O Concílio de Nicéia e a unidade do Pai e do Filho

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

O ano 2025 lembra os 1700 anos de Nicéia realizado em 325 em um grande Concílio, convocado pelo Imperador Constantino, onde foi reafirmada a divindade do Filho, diante da negação ariana que o Filho não fosse Deus. O Concílio disse que o Filho é Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, é da mesma substância do Pai. A doutrina ariana foi condenada pelos 300 bispos reunidos provenientes das diversas partes do Império, mas, sobretudo do Oriente, tendo presentes a unidade do Pai com o Filho e do Filho com o Pai e o Espírito Santo. Vejamos a seguir a visão em Santo Agostinho, bispo dos séculos IV e V em Hipona no Norte da África, a forma como ele desenvolveu a unidade entre as duas Pessoas divinas que reflete a unidade com o Concílio de Nicéia em 325.

O Pai mostra ao Filho as coisas feitas.

O Bispo de Hipona teve como ponto fundamental o capítulo 5,19-26 de São João onde fala que o Pai mostra ao Filho tudo o que o Pai faz(cfr. Jo 5,19). A verdade é que o Pai faz tudo pelo Filho, por meio dele. Isto significa que o Pai mostra as suas obras ao Filho, antes de fazê-las. Desta forma, o Pai não faz nada sem o Filho, visto que o Filho de Deus é o Verbo de Deus e que “tudo foi feito por Ele (cfr. Jo 1,3).

O Pai irá mostrar obras maiores.

O Evangelista São João diz em seguida pela boca de Jesus que o Pai mostrar-lhe-á obras maiores do que estas (cfr. Jo 5,20). O texto está em unidade do milagre, sinal do Senhor, daquela pessoa que foi curada por Jesus, de uma doença havia trinta oito anos de sofrimento. Sem dúvida tratava-se das curas de doenças corporais e outras maiores. O Pai mostrará as obras para que as pessoas fiquem na admiração. É um linguajar que exige fé na Palavra de Jesus, como o Pai mostra, por assim dizer, temporalmente, certas obras ao Filho que é coeterno a Ele e sabe tudo o que é que está no Pai.

O Pai ressuscita mortos: O Filho também ressuscita mortos.

Jesus disse “Como o Pai ressuscita mortos e dá-lhes a vida, assim também o Filho dá a vida aos que quer” (Jo 5,21). A obra maior é ressuscitar os mortos, feita pelo Pai e também feita pelo Filho. O fato é que o Filho dá a vida aquelas mesmas pessoas a quem o Pai a dá, lhes concede, visto que não faz obras diferentes do Pai, de modo que o Filho faz as mesmas obras que o Pai faz.

Dar a vida.

Para Santo Agostinho, dado que provem do Evangelho do Senhor, o Filho dá a vida aos que quer, assim como o Pai dá a vida aos que quer (cfr. Jo 5,21). Nestas afirmações entendem-se que tanto o poder do Filho como a vontade do Pai são os mesmos. Em seguida vem a afirmação do Filho que “O Pai não julga ninguém, mas entregou o julgamento ao Filho, para que todos honrem o Filho como honram ao Pai” (Jo 5, 22-23). Santo Agostinho também afirmou que é impossível alguma pessoa honrar o Pai sem o Filho, porque o Pai está no Filho e o Filho está no Pai, e também pelo fato de que o Pai é assim chamado porque tem o Filho e o Filho é assim chamado porque tem o Pai. A honra dada ao Filho não é menor daquela dada ao Pai, porque as duas Pessoas divinas merecem o mesmo louvor e glória de modo que o julgamento dado ao Pai é concedido ao Filho. Este argumento era visível no arianismo, pela negação divina do Filho, mas foi condenado em Nicéia, de modo que para Santo Agostinho que estava a favor do Concílio, o Filho está na mesma linha de eternidade do Pai e do Espírito Santo.

A unidade do Pai e do Filho.

O bispo de Hipona afirmou a unidade do Pai e do Filho. “Quem escuta a palavra de Jesus e crê n’Aquele que o enviou, possui a vida eterna e não vai a julgamento, mas passou da morte para a vida” (cfr. Jo 5,24). A unidade é perfeita, é eterna entre o Pai e o Filho de modo que a pessoa que escuta a palavra de Jesus está em comunhão com a palavra do Pai, não existindo entre as duas Pessoas divinas nenhuma separação, mas somente unidade. O ponto fundamental é dado neste sentido de que crer n’Aquele que o enviou, o Pai, crê no Filho, pois o Filho é a Palavra, o Verbo do Pai (cfr. Jo 1,1).

A ressurreição para a vida eterna.

Jesus na sua condição de ser humano e divino afirmou que vem a hora e é agora (cfr, Jo 5,25) de que os mortos passarão da morte para a vida eterna. O poder de Jesus que é o mesmo do Pai fará a ressurreição dos mortos, das pessoas que viverem em unidade com o Senhor, com a Igreja, com as pessoas, ressuscitarem no fim do mundo. A afirmação de Jesus de que vem a hora e é agora se referia à ressurreição dos mortos em que os ressuscitados viverão eternamente, ponto que se há de realizar na última hora, sendo o mesmo dom, a ressurreição que o Senhor dará aos seus seguidores e seguidoras, missionários, missionárias.

A vida em si mesmo do Pai também concedida ao Filho.

A vida, o grande dom de Deus dado à humanidade, proveniente do Pai é concedida também ao Filho. “Com efeito, como o Pai possui a vida em Si mesmo, assim também Ele dá ao Filho ter a vida em Si mesmo” (Jo 5,26). O Filho não tem a vida proveniente de fora, mas em Si mesmo: seu ato de viver reside no Pai, não sendo alheio a Ele, não possuindo a vida por empréstimo, nem recebe como participação da vida, e de uma vida que não fosse o que Ele mesmo é, mas Ele possui a vida em Si mesmo, de modo que Ele mesmo é, para Si, a própria vida. Para Santo Agostinho a prova máxima da igualdade do Pai para com o Filho e do Filho para com o Pai, está na afirmação de “Como o Pai possui a vida em Si mesmo, assim Ele deu ao Filho ter a vida em Si mesmo” (Jo 5,26), de modo que a vida é dada nas duas Pessoas divinas de o Pai ter a vida em Si mesmo, sem que ninguém Lha tenha dado, e o Filho ter em Si mesmo a vida que o Pai Lhe deu, não existindo nenhuma subordinação mas a sua plena igualdade entre as duas Pessoas divinas.

Santo Agostinho foi um fiel seguidor do Concílio de Nicéia colocando a comunhão das Pessoas divinas sobre o mesmo plano, afirmando a Unidade e a Trindade, não sendo três deuses, mas um único Deus em três Pessoas. Como o arianismo negava a divindade do Filho na eternidade, era preciso afirmar a sua plena comunhão de substância com o Pai, sendo Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado. Nós professamos a nossa fé em Deus Uno e Trino. Pelos sacramentos da Iniciação à vida Cristã, somos nós chamados a viver em comunhão em nossas comunidades, famílias, paróquias, Dioceses, para que o mistério de Deus Uno Trino seja louvado e amado através das obras boas que fizermos, sobretudo aos mais necessitados a fim de que um dia vivamos na plena comunhão com a comunidade dos santos e das santas e com o Deus Uno e Trino.

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