Marabá, 24 de julho de 2026

A ascese na Igreja primitiva, nos padres da Igreja e na vida atual

A ascese nos padres da Igreja

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

A ascese é um dos pontos importantes no seguimento a Jesus Cristo, na vida cristã e ela também foi de enorme envergadura nos primeiros séculos do cristianismo, com os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos sabendo que muitos viveram esta dimensão em suas comunidades e nos desertos. Nesses primeiros séculos da vida cristã entendamos nós que a palavra ‘padre’ é dada no sentido de fundador de comunidades cristãs, muitas vezes convertido do paganismo ao cristianismo, de modo que teve uma missão importante na vida comunitária, esta pessoa podia ser do ministério sacerdotal, mas também podia ser um leigo, ou uma leiga, pessoa não ligada necessariamente ao sacramento da ordem sacerdotal. O termo Padre neste período era mais no sentido de fundador, coordenador de comunidades. A ascese é dada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo (cfr. Mt 22,37-39). Nós fazemos uma análise na forma como a ascese cristã se desenvolveu no período antigo e ilumina a vida atual no seguimento a Jesus Cristo e à sua Igreja.

               O significado da palavra ascese.

A ascese vem do verbo grego ‘askein’ que se refere ao treinar para uma corrida, exercitar-se para adquirir um certo ideal, virtude. A ascese significava um exercício sistemático para se alcançar algo fundamentado, uma missão maior. Para a Sagrada Escritura a ascese muito tem a dizer ao povo que passou por provações no deserto, a intimidade reservada com Deus, a libertação da escravidão da Babilônia, a semelhança com a vida de São João Batista no deserto e na vida pública, como o novo Elias[1].

A ascese também significou uma ação interior para adquirir a unidade com Deus, através da virtude, da oração, dos sacramentos, de uma vida empenhada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo[2].

               A prática de Jesus.

Jesus esteve ao lado das pessoas de todas as categorias, das mulheres, dos pecadores, das pessoas necessitadas (cfr. Mc 2,16; Mt 11,18; Mc 15,41) pedindo os valores da conversão de vida (cfr. Mc 1,15), para assim estar no caminho da vida verdadeira. Jesus exigia das autoridades e de seus discípulos, as condições para entrar no Reino de Deus, pelo despojamento e pela vida caritativa, a superação do legalismo, o empenho pela cruz, o amor dos irmãos e no seu seguimento (cfr. Mc 8,34; Mt 19,21)[3].

               A ascese na Igreja antiga.

São Clemente de Roma, bispo, Papa no final do século I afirmou a importância dos dons para serem servidos à comunidade. Tudo deveria estar a serviço da comunidade. Ele disse que o forte cuide do fraco, o fraco respeite o forte, o rico socorra o pobre, o pobre agradeça a Deus por alguém lhe dar a suprir a sua indigência; o sábio mostre a sua sabedoria em boas obras; o humilde viva o amor; o puro viva em comunhão com as pessoas e com Deus[4]. Santo Inácio de Antioquia, bispo no século I e início do século II afirmava que era preciso fugir as profissões desonestas. Ele também tinha presentes os maridos para que amassem as suas esposas e as esposas seus maridos e que se alguém permanecesse na castidade, vivesse na humildade. Ele dizia também que os homens e as mulheres que se casassem que se fizesse a sua união com o parecer do bispo, para que o seu matrimônio fosse segundo o Senhor, para a honra das pessoas e de Deus[5].

               A ascese no monaquismo antigo.

O monaquismo surgiu na Igreja antiga com Santo Antão, o patrono dos monges e de todo o movimento monacal[6]. O movimento surgiu com homens e mulheres que entravam no deserto adentro para uma vida solitária, comunitária, feita pela oração e pelo trabalho, leitura da Sagrada Escritura. Eles e Elas tinham presentes os patriarcas do AT, Moisés, os profetas, São João Batista, mas sobretudo Jesus Cristo, o verdadeiro asceta que evangelizou os pobres, curou os doentes, expulsou os demônios, enfrentou e denunciou as hipocrisias das autoridades religiosas, políticas; Ele se retirava frequentemente para a oração no monte (cfr. Mt 14,23), mas descia para o anúncio do Reino de Deus. Jesus se tornou o modelo a ser seguido na vida monástica. A ascese ganhará o sentido de retirar-se para a oração, mas também comprometer-se na vida familiar, comunitária, social para um dia participar do Reino dos Céus[7].

               As Sagradas Escrituras e a oração.

Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos tinham presentes as Sagradas Escrituras para vivenciar a ascese. As pessoas deveriam fazer as coisas segundo a Vontade de Deus e ter presentes também as Sagradas Escrituras. Desta forma o monge do deserto via nas Escrituras Sagradas o princípio formal da própria existência. As Escrituras eram as mãos de Deus que continuavam a plasmar o ser humano para uma vida conforme a Vontade de Deus[8].

As Sagradas Escrituras conduziam a pessoa para a oração com Deus e à unidade com as pessoas. Era preciso o conhecimento das Sagradas Escrituras, mas também era preciso estar tudo acompanhado pelas orações, para não ficar somente num conhecimento puramente intelectual[9]. As pessoas monacais ensinavam as outras pessoas a meditar a Palavra de Deus, a ruminar como se devesse mastigar a Palavra de Deus, de Jesus para se tornar um verdadeiro e fundamental alimento, capaz de nutrir-se espiritualmente para a vida cotidiana e a preparação para a vida sobrenatural[10].

Para uma vida ascética o tempo não se media para os monges e as monjas; Era aquilo que se meditava, sobretudo a Palavra de Deus, a oração e os sacramentos, determinavam o quanto tempo desejava a se tornar assimilável a vida ascética com Deus, com as pessoas, com as comunidades, para que assim as pessoas vivessem a unidade com Deus em vista da vida eterna[11]. Nós acreditamos a importância da ascese na atualidade para que saibamos discernir o certo e o errado sob a luz do Espírito Santo e mantenhamo-nos unidos a Igreja, a Esposa de Jesus Cristo, e nós sejamos os seus membros ativos, participativos para a glória de Deus Pai.

[1] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Institutum Patristicum Augustinianum. Casa Editrice Marietti- Genova-Milano. 2006, pgs. 571-572.

[2] Cfr. Ascèsi. In: Il Vocabolario Treccani, Il Conciso. Lavìs, Trento,1998, pg. 127.

[3] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Idem, pg. 572,

[4] Cfr. Clemente aos Romanos, 38,2. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, pg. 51.

[5] Cfr. Inácio a Policarpo, 5,2. In: Idem, pg. 123.

[6] Cfr. Santo Atanásio. Vida e Conduta de Santo Antão. São Paulo: Paulus, 2002.

[7] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Ibidem, pg. 573.

[8] Cfr. Nazzareno Treccioni, L´Ascesi nei Padri del Deserto. Attraverso gli apoftegmi. Todi (PG). Tau Editrice, 2022, pgs.113-114.  

[9] Cfr. Idem, pg. 114.

[10] Cfr. Ibidem, pg. 115.

[11] Cfr. Ibidem, pg. 115.

 

Imagem: https://www.google.com/imgres?q=igreja%20primitiva&imgurl=https%3A%2F%2Fbibliotecacatolica.com.br%2Fwp-content%2Fuploads%2F2024%2F05%2Figreja-primitiva-sao-paulo-thumb-1024×788.jpg&imgrefurl=https%3A%2F%2Fbibliotecacatolica.com.br%2Fblog%2Fformacao%2Figreja-primitiva%2F%3Fsrsltid%3DAfmBOooAEmsHCLvSB1l6xfJ5861nxppkIdG7xxBWICkqaqJQAVdbIbmH&docid=3NCIyw3tJBd84M&tbnid=rutkLR1nqaJ_AM&vet=12ahUKEwinla2Qm-uVAxUQE7kGHbRcGlsQnPAOegQIQxAA..i&w=1024&h=788&hcb=2&ved=2ahUKEwinla2Qm-uVAxUQE7kGHbRcGlsQnPAOegQIQxAA

FacebookWhatsAppTwitter