Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.
A Santíssima Trindade em nós e na igreja Antiga
Nós acreditamos em Deus Uno e Trino sendo a fonte de vida para nós, para todas as pessoas que vivem neste mundo e um dia na eternidade. É o mistério dos mistérios que engloba toda a nossa existência e na qual tudo começa e termina em Deus que é Pai e Filho e Espírito Santo. Não se trata de três deuses mas de um único Deus em três Pessoas. Vejamos a seguir como foi percebido a fé em Deus Uno e Trino nos primeiros séculos do cristianismo.
O batismo em nome da Santíssima Trindade
Um dos primeiros documentos que fala da Santíssima Trindade é a Didaqué, Doutrina dos Doze Apóstolos escrita nos primeiros séculos do cristianismo afirmava que o batismo deveria decorrer com a agua corrente em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. O ministro derramaria três vezes água sobre a cabeça em nome da Santíssima Trindade[1].
A sucessão apostólica ligada ao Deus Uno e Trino.
São Clemente Romano, bispo de Roma, no final do primeiro século afirma que os apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo, o Evangelho do qual pregaram com amor. Jesus Cristo foi enviando por Deus. Jesus Cristo vem de Deus e aos apóstolos vem de Jesus Cristo. Tudo provêm da Vontade de Deus. Os apóstolos receberam instruções e por causa da ressurreição de Jesus Cristo, fortificados pela Palavra de Deus e com a plena certeza dada pelo Espírito Santo, saíram anunciando que o Reino de Deus estava para chegar[2].
A comunidade crê na Santíssima Trindade.
Santo Inácio de Antioquia, bispo no final dos séculos I e início do século II, afirmou a importância da comunidade à fé trinitária diante das doutrinas contrárias ao Senhor Jesus Cristo. O bispo ao dirigir-se à comunidade de Efésios afirmou que as pessoas cristãs são templo do Pai, preparadas para a construção de Deus Pai, levantadas até o alto pela alavanca de Jesus Cristo, que foi a cruz, usando a corda, que é o Espírito Santo. A fé na Trindade é o guindaste, o caminho que leva até Deus e à comunidade que acredita nele[3].
A oração trinitária de São Policarpo, mártir.
São Policarpo deu a sua vida pelo Senhor, em idade bem avançada. Foi fiel a Ele pelo martírio do qual derramou como o Senhor o seu sangue. Antes de ser queimado vivo proferiu ele uma oração bonita, expressiva voltando-se à Trindade. Ele invocou o Senhor, Deus todo-poderoso, Pai do Filho amado e bendito, Jesus Cristo, pelo qual as pessoas recebem o conhecimento do nome de Deus verdadeiro. Ele bendizia ao Senhor por ter sido julgado digno daquele dia e daquela hora, de tomar parte entre os mártires e do cálice do Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo[4]. O mártir tinha presente o Pai e o Filho e o Espírito Santo.
A confissão dos cristãos.
Aristides de Atenas, apologista afirmou a confissão dos cristãos diante das autoridades e do povo pagão. Eles descendiam do Senhor Jesus Cristo, sendo confessado como Filho do Deus Altíssimo no Espírito Santo, descido do céu para a salvação das pessoas humanas. Ele foi gerado de uma Virgem santa, encarnou-se e apareceu aos seres humanos para afastá-los do erro do politeísmo[5].
O batismo em nome da Santíssima Trindade.
São Justino de Roma, afirmou que o batismo dos catecúmenos, adultos, era feito em nome da Santíssima Trindade. As pessoas eram conduzidas a um lugar onde havia água e pelo mesmo banho em vista do banho de regeneração, tomando da água o banho em nome de Deus, Pai, Soberano do Universo e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo[6].
A manifestação do mistério de Deus Uno e Trino
Santo Ireneu de Lião afirmou o mistério do Deus Uno e Trino e a sua manifestação ao mundo. Seguindo a palavra de Deus no Apóstolo Paulo disse que se manifesta “um só Pai que é sobre todos, por meio de todos e em todos” ( Ef 4,6). O bispo de Lião disse que quem está sobre todos, é o Pai e Ele que é a cabeça de Cristo: por meio de todos, há o Verbo que é a cabeça da Igreja: em todos, há o Espírito Santo e Ele é a água viva que o Senhor as pessoas que acreditam na retidão das coisas e das obras[7].
A fé no Deus Uno e Trino.
Tertuliano aprofundou o mistério de Deus Uno e Trino, a sua fé, de modo que a Igreja tomou muito deste autor que colocou as bases de Deus Uno e Trino. Contra Práxeas que negava as Pessoas divinas, Tertuliano disse que é impossível acreditar em um só Deus, se não é também o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Tudo deriva da unidade, pela unidade evidentemente da substância divina, tendo presente também a economia que dispõe a unidade na Trindade, prescrevendo o Pai e o Filho e o Espírito Santo como Três Pessoas. O Padre Africano especifica melhor este mistério afirmando três não pela natureza mas pelo grau, não pela substância, mas pela forma, não pela potência, mas pela especificidade, de uma só substância, de uma só existência, de uma só potência, porque Deus é único e derivando Dele estes graus, formas e especificidades são distribuídas nas Pessoas do Pai e do Filho e do Espírito Santo, os quais admitem a pluralidade sem divisões mas sã unidas na mesma substancia divina[8].
[1] Cfr. Didaqué, 7,1-3. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, pgs. 351-352.
[2] Cfr. Clemente Romano aos Coríntios, 42,1-3. In: Idem, pg. 53.
[3] Cfr. Inácio aos Efésios, 9,1. IN: Ibidem, pg. 85.
[4] Cfr. Martírio de São Policarpo, 14,1-2. In: Ibidem, pgs. 152-153.
[5] Cfr. Apologia de Aristides de Atenas, 15,1. Um: Os Padres Apologistas, São Paulo: Paulus, 1995, pg. 51.
[6] Cfr. Justino de Roma, I Apologia 61,3. In: São Paulo: Paulus, 1995, pg. 76.
[7] Cfr. Ireneu de Lião, V,18,2. In: São Paulo, Paulus, 1995, pg. 567.
[8] Cfr. Q.S.F. Tertulliano, Contro Prassea, II, 3-4. In: Società Editrice Internazionale, Torino, 1985, pg. 147.