Marabá, 31 de outubro de 2020

A Maravilha da natureza criada por Deus nos padres da Igreja.

29 de setembro de 2020   .    Notícias da Diocese

Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos, tiveram uma palavra muito importante sobre a natureza. Além da expressão da maravilha das coisas criadas por Deus, estimulavam as pessoas de suas comunidades para a sua preservação. Nós estamos passando por um período de crise, de queimadas, de desmatamentos de nossas florestas permeados por interesses econômicos e políticos de modo que é preciso olhar os padres da Igreja para que possamos agir bem hoje na vida natural, comunitária e social. É preciso a conversão ecológica, do qual o Papa Francisco insistiu muito na Laudato Sì. As coisas de Deus merecem o nosso respeito e amor.

            Nas catequeses batismais de São Cirilo, bispo de Jerusalém, no século IV, afirmou da alegria em contemplar a primavera e todo o gênero de flores, tão diversas. Tudo se transforma na natureza em vista da produção de frutos e frutas para o ser humano em geral. Das parreiras, por exemplo, vem a uva e mesmo os nós, a cana, o como fez muito bem o Criador[1]. O bispo afirmou que de uma só terra provêem a floresta, os alimentos comestíveis, o ferro, as pedras. Em relação à água ele dizia que provêem a raça dos peixes e dos pássaros; os primeiros para nadar nas águas e os segundos para voar no céu. É preciso também contemplar o mar que com a arrogância de suas ondas não pôde invadir a terra, agindo dentro do seu próprio limite, conforme as ordens do Senhor[2]. O ser humano deve seguir a Palavra de Deus na qual o Criador falou que a terra produzisse seres vivos nas suas espécies, animais domésticos, animais rasteiros e animais selvagens, segundo suas espécies[3]. Foi desta forma que as diversas raças de animais com uma só ordem, por uma só origem, o Criador, vieram à luz. Assim o Criador é glorificado pelos seres criados. As criaturas não podem ser consideradas inúteis, mas úteis à vida do ser humano. O bispo falou da grandiosidade de Deus em suas criaturas de modo que é impossível conhecer as qualidades de todas as plantas. Ou como se poderiam conhecer os benefícios de cada animal? Do veneno da víbora se preparam antídotos para a saúde, dos seres humanos. Desta forma é possível ver segundo o bispo de Jerusalém da variedade da criação a grandeza do Criador[4].

            Santo Agostinho, bispo de Hipona, no século IV, exaltou a harmonia de todas as coisas. Ele tinha presentes as palavras do salmista que afirma que são maravilhosos os testemunhos do Senhor, de modo que a alma humana os perscruta[5]. A pessoa é levada a contemplar os testemunhos de Deus. Porque o céu, a terra, as suas obras visíveis e invisíveis mostram de certa maneira os testemunhos da bondade e grandeza de Deus. É possível ver em tudo isso, a grandeza do Criador no que se refere ao tempo de vida de todas as espécies de seres, embora temporais e mortais, ainda que sejam despercebidas devido ao costume, dão testemunho ao Criador. Tudo é digno de admiração seja pela razão, seja pelo habito, de modo que quanto mais ocultas as causas dos seres criados por Deus, tanto mais admiráveis se tornam os fatos[6].

            Santo Ambrósio, bispo de Milão, no século IV, tinha presente o organicidade da criação dada por Deus, que fez o céu e a terra e a separação entre luz e trevas. Quem não admiraria o fato de que membros dessemelhantes surjam um só corpo num mundo impar nas quais estes membros tão diferentes entre sim se juntem em sociedade e união, por uma lei de concórdia e de caridade? Como é possível que elementos diferentes por natureza se unam em vínculo de unidade e paz, tendo também uma atração irresistível? Todas essas coisas foram criadas pela força divina, incompreensível para as mentes humanas e inefável para as nossas palavras, que entrelaçou pela autoridade de sua vontade. Desta forma, Deus como autor, fez o céu e a terra e prescreveu que passassem a existir, não foi como inventor de uma configuração, mas como o artífice verdadeiro da natureza[7].

            São Basílio Magno, bispo de Cesaréia, no século IV, falou da grandiosidade e da beleza da luz. Deus disse: “seja a luz”[8]. A primeira palavra de Deus criou a luz, dissipou as trevas afastou a tristeza, iluminou o universo, revestindo toda a coisa de uma aspecto agradável e alegre. Apareceu o céu, antes escondido nas trevas; apareceu a sua beleza tão grande como também agora os olhos possam testemunhar. A atmosfera acolhe em tudo os raios da luz e as águas são mais límpidas. A palavra divina doou a toda coisa um aspecto belíssimo e agradabilíssimo. Deus não só falou para que houvesse a luz, mas também a criou e ela se fez no mundo de modo que a mente humana não pode imaginar nada mais de agradável e de mais bonito. E Deus viu que a luz era bonita[9]. Quais louvores poderão nós pronunciar, que sejam dignos da luz, no momento que o Criador mesmo a reconheceu bonita desde o principio?[10] Por isso São Basílio teve presente a necessidade de louvar a Deus pela criação da luz.

            Santo Efrém, o Sírio, diácono, no século IV, afirmou que a ordem da criação demonstra o poder do Criador. Nenhuma pessoa pode compreender como seja grande o poder do Criador e nem mesmo pode medir aquilo que ele criou e aquilo que é em grau de criar. As criaturas que Ele fez e as suas obras que criou, não manifestam de fato todo o seu poder. O fato é que a sua vontade é infinita. Ele quis que as suas obras tivessem uma dada grandeza, por isso as criou na medida e naquilo que fosse conveniente à sua vontade. Assim como Ele iniciou a criar para atuar as criaturas: ao mesmo tempo cessa de criar para realizar a ordem. Da mesma forma como Ele pode criar em toda hora, não cria continuamente novas realidades, porque quis estabelecer a ordem nas criaturas mesmas que criou. Aquilo que criou é de fato incomensurável, não tendo medida porque Deus é infinito e sem medidas e as criaturas estão numa realidade limitada. Tudo aquilo que ele produz com seu aceno, veio do nada[11]. Assim a ordem das criaturas manifesta o poder do Criador.

Estes padres da Igreja colocam a maravilha da natureza criada por Deus, de modo que o ser humano é convidado a amar o seu Criador, louvá-lo e assim preservando-a possa viver em companhia com a mesma para o louvor de Deus Uno e Trino.

[1] Cfr. Cirillo di Gerusalemme, Catechesi battesimali, 9, 10. In: La teologia dei Padri, 01. Città Nuova editrice, Roma, 1981, pg. 92.

[2] Cfr. , 38,11.

[3] Cfr. Gn, 1,24.

[4] Cfr. Cirillo de Gerusalemme, 9, 15. In: Idem, pg. 93.

[5] Cfr. Sl 118,129. In: Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos) Salmos 101-150. Paulus, SP, 1998, pg. 506.

[6] Cfr. Idem, pg, 506.

[7] Cfr. Santo Ambrósio, Examerão, 1,1. Paulus, SP, 2009, pg. 57.

[8] Gn 1,13.

[9] Gn 1,4.

[10] Cfr. Basílio Il Grande, Esamerone, 2,7. In: La Teologia dei Padri, idem, pgs. 95-96.

[11] Cfr. Efrem Siro, La Fede, 2,4-5. Idem, pgs. 94-95.

Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

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